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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Forja de Zandru - trecho 59 / pausa

...

Eduin observou surpreso enquanto Dyannis saía da pista de dança. Seu irmão, que deveria tê-la escoltado de volta às cadeiras onde as damas se sentavam, estava em pé como se tivesse levado uma facada. Parecia que iria tombar a qualquer momento.
Não sei o que disse a ela, mas não queria estar em sua posição nem por todo o ouro de Shainsa.
Eduin sentiu uma inesperada onda de empatia por Varzil. Mesmo se não estivesse sob leve contato com Dyannis devido à dança anterior, ele teria sentido sua fúria. A sala estremeceu com aquilo. Foi um espanto que cada pessoa no local que possuísse um mero toque de laran não reagisse.
Alguém terá que ensiná-la a controlar melhor sua telepatia... ele sentiu a sombra do pensamento de Maura enquanto ela corria atrás de Dyannis. Com uma pontada, ele desejou poder ir com ela.
Nunca conhecera ninguém como Dyannis. Não era apenas pelo seu jeito sincero. Quando chegou a Arilinn, achou as mulheres embaraçosamente ousadas. Mesmo que tivessem ido para uma Torre por uma temporada ou pelo resto de suas vidas, elas rapidamente adotavam suas regras de comportamento não mencionadas. Tomavam os amantes que desejavam, mas por mais prazeroso que o fosse, quando o sol nascia e os círculos se reuniam, trabalho era trabalho. Eles eram companheiros que tinham a mente um dos outros... e as vidas... em suas mãos.


Continua... 



Olá pessoal, 

Infelizmente este é o último trecho que temos traduzido de A Forja de Zandru, até termos novos materiais o livro está como os outros projetos pausado.
Se você for um fã e tiver interesse na conclusão deste ou de outros projetos e quiser ajudar na tradução ficaremos muito felizes.
Com este já são 4 projetos do Leia Conosco pausados.
Espermos podermos retoma-los.
Obrigada a todos que nos acompanham desde então.

Adelandeyo! 






sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Forja de Zandru- trecho 58


17


Na noite do Festival de Inverno, o grande saguão no Castelo Hastur brilhava com milhares de luzes. Coroas de folhagens, presas com fitas e frutinhas vermelhas, enchiam o ar de agridoce. Desde a noite anterior, os deliciosos aromas de pão condimentado e bolos de nozes dos fornos se misturavam com o do boi que assava sobre a cavidade aberta no pátio.
O banquete começou à tardinha com as bênçãos formais do rei. Primeiro a família real, depois os outros parentes Hastur, e finalmente os nobres e cortesãos reunidos tomaram seus lugares ao lado das mesas do banquete para ouvir as honrarias.
Em anos Carolin não via seu tio parecer tão vigoroso. Talvez fosse por Felix Hastur não falar apenas por si mesmo, mas como a encarnação, o descendente do primeiro Hastur, o filho de um deus, que assumira a mortalidade pelo amor de uma mulher.
Em alguns lugares, o manto da Abençoada Cassilda era usado pela mulher do castelo, parada ao lado de seu marido como Dama e Senhor da Luz. Juntos eles personificavam os antigos ciclos da luz e escuridão, inverno e primavera, calma e regozijo, nascimento e morte. Diziam que as Torres tinham seu próprio Festival de Fim de Ano, com kireseth e todo o tipo de devassidão. Como ele ainda não havia passado um Festival em uma Torre, nem tivera vontade, nunca iria descobrir.
Nenhum comportamento escandaloso aconteceria ali, apesar de sempre haver bebês nascendo nove meses após o Festival. Ainda assim, uma aura rodeava o velho Rei enquanto erguia suas mãos e declamava as antigas palavras. Sua frágil voz ressoava pelo saguão. Então ele bateu palmas três vezes e a audiência explodiu em alegria.
Nas galerias, músicos começaram uma alegre melodia. Um autêntico exército de serviçais saiu dos corredores de onde esperava, carregando bandejas com carnes suculentas, pernis e assados e enormes e suculentas costeletas, saborosas tortas decoradas com emblemas estilizados, frango recheado e caramelizado, e cestas de pão do feriado. Mais serviçais trouxeram canecas de vinho e cerveja quente temperada, a bebida favorita de Rei Felix.
Enquanto o salão de danças era preparado, a multidão crescia, com cada dignitário de Hali e das terras ao redor juntando-se aos convidados do castelo, família e cortesãos.
O programa daquela tarde começou com Rei Felix e Dama Liriel juntando-se para uma majestosa caminhada. Observando o rei que havia sido grisalho e velho desde que podia se lembrar, Carolin viu os ecos de uma antiga graça, pelo sangue chieri que corria no Comyn e especialmente em sua própria família. Felix podia já ter vivido demais em termos humanos, mas quando a música era leve e a luz suave, seus passos as acompanhavam.
A velha Dama Bronwyn descera para o banquete e ficara para honrar a primeira dança do Rei com sua presença, depois se retirando aos seus aposentos. Carolin, como sempre, dançou com uma procissão de parentas, começando com a de mais alta posição, que era Liriel. Como uma estátua de gelo em uma torrente branca e prata, ela movia-se perfeita através dos intrincados movimentos da dança. Carolin como todos de sua casta e época, tomara aulas de dança logo que começara a andar, mas não conseguia acompanhar sua calma precisão.
Orain sentou-se do lado de fora nessa parte da tarde, dizendo estar guardando sua força para a dança mais agitada já que os mais velhos haviam ido para a cama e a cerveja do feriado animava os jovens. A esposa de Orain se retirara imediatamente após a cerimônia. Carolin suspeitou que estivesse cansado de dançar com sua prima Jandria e preferia bem mais a energia masculina da dança da espada.
Carolin notou Eduin e Dyannis juntos. Eles rodeavam o salão, esquecidos dos outros casais. Em qualquer outra noite, teria sido impróprio, se não escandaloso, para um casal solteiro dançar a secain em público. Carolin achou que eles ficavam muito bem juntos. O vestido rosa da garota brilhava como uma pérola no fundo do mar de Temora em contraste com o casaco de rico cetim cor de bronze e o manto curto de seu parceiro. Eduin inclinava sua cabeça próximo a dela, seu braço protetoramente ao seu redor.
Uma esguia figura em cores sóbrias entrou na pista de dança e parou, tensa.
- Varzil! - Carolin exclamou.
Varzil entrou como uma lança sombria através da glamorosa multidão. Assim que Dyannis o viu, parou de dançar e deu-lhe entusiasmadas boas-vindas. Com um movimento abrupto, ele a afastou. Carolin não pode ouvir as palavras sob a música, mas notou a dura expressão de Varzil e o súbito corar nas faces da garota.
- Eu danço com quem eu quiser! - Dyannis gritou. - E você não tem o direito...
- Não queríamos... - Eduin começou, erguendo as mãos.
- E agora, - Carolin disse, usando sua melhor voz cortes. - O que está havendo?
- Não vale a pena desperdiçar saliva, - Dyannis disparou. Jogando os cachos, passou sua mão pelo braço estendido de Eduin. - Por favor, faça a gentileza de me escoltar de volta às outras damas. Estou cansada demais para continuar.
Com isso, ela arrastou Eduin. Varzil fez menção de segui-los, mas Carolin impediu-o com um toque.
- Qual o problema?
- Qual o problema? - Varzil repetiu com escárnio. - Minha irmã... ele está dançando com minha irmã!
- Eduin? E porque não deveria? - Carolin disse. - Ela está certa, você sabe. Mesmo aqui em uma corte das terras baixas, é perfeitamente aceitável para um amigo próximo de seu irmão convidá-la para dançar, mesmo que não seja Festival. Não é menos apropriado para Eduin do que é para mim, e eu fiz exatamente isso enquanto você convalescia, é melhor do que deixá-la sentada toda amuada quando qualquer tolo cego podia ver o quanto queria dançar. Vai brigar comigo, também? Ela está se divertindo, e Eduin também. Aqui na frente de todos, o que há de mal nisso? Ou confia tão pouco nela que precisa guardar sua honra a todo o momento?
Retirando-se da pista de dança, Varzil balançou a cabeça. - Eu não... não faria sentido algum para você.
- Está falando sobre aquela antiga rinha entre vocês? - Carolin perguntou, seguindo-o. - Só porque ele se comportou mal quando você chegou a Arilinn? Ele me disse uma dúzia de vezes o quanto se arrependeu daquilo, como vem tentando compensar desde então. Pensei que não fosse capaz de carregar rancor, Varzil, ou de fazer sua irmã infeliz na noite do Festival de Inverno.
Varzil virou-se, andando até passar o grupo de velhos lordes e bacharéis parados ao redor do salão. Ali, nos cantos escuros e passagens em arco, ele parou. Seus ombros subiam e desciam com cada pesado suspiro. Carolin seguiu à distância, observando. Após um longo momento, ele se aproximou e apoiou uma mão gentilmente no ombro de Varzil.
Ele tem estado doente, longe de casa. Eventualmente ele e Eduin esquecerão o passado, mas não posso forçá-lo sob essas condições.
- Sinto muito, - Carolin disse. - Quase provoquei uma discussão entre nós, e não quero isso. Vamos aproveitar o feriado como amigos.
Um calafrio percorreu através da magra estrutura de Varzil. - Você está certo, como sempre. Dois dias atrás, falamos de homens achando meios pacíficos de ajustar suas contas, e aqui estou eu, pronto para socar Eduin no nariz. - Ele forçou uma risada. - Não devia tentar resolver diferenças na pista de dança.
- Bem, se acha necessário, - Carolin disse em um tom mais leve, - podia desafiá-lo na dança da espada. Você sabe, quem pula mais longe ou chuta mais alto ou gira mais vezes sem cair no chão.
- No meu estado, ele ganharia na primeira rodada, mesmo se estivesse cego e aleijado. Não, é melhor deixar para lá. - Apesar das palavras, Varzil pareceu pensativo, de cara fechada.
Carolin, temendo que Varzil se retirasse de vez das festividades, sugeriu novamente que convidassem Maura e Jandria para dançar a próxima rodada. Para sua surpresa, Varzil concordou.
As danças haviam se tornado cada vez mais espirituosas e menos ordenadas, com muitas oportunidades para os casais fazerem contato visual ou mesmo roubarem um beijo. Por acaso, a próxima era decorosa o bastante para ganhar a aprovação da exigente dama de companhia. Maura saltitou através das figuras ao lado de Carolin. Jandria estava com um incomum humor tagarela. Quando os músicos tocavam as cordas que sinalizavam as cortesias finais, até mesmo Varzil estava sorrindo.
Carolin escoltou Maura de volta ao seu assento e demorou-se ali por um momento. Ela olhou de volta para a pista de dança onde Varzil e Jandria ainda conversavam animadamente.
- Varzil parece melhor, - Maura disse. - Por um momento, quando ele desceu, eu me perguntei... há alguma questão mal resolvida entre ele e Dyannis? Ela é o que o povo de Venza chama de cabeça-dura, e eu diria que ele é igual, por causa de como você me disse que ele foi admitido em Arilinn. Aquilo nem sempre traz harmonia para a família.
Então Maura também sentira a discórdia cruzar a sala. Carolin sorriu, pensando haver pouca privacidade entre telepatas, mesmo se mantendo a voz baixa. Ele disse, - Acho que é uma questão de Varzil descobrir que sua irmãzinha é uma mulher crescida e capaz de se virar sozinha.
- Com certeza! - Maura disse com vontade. - Não esperaria menos, pois ela tem o talento e a ambição para se dar bem em uma Torre, em vez de ficar em casa sentada remendando meias e fazendo bebês. - Ela virou a cabeça, olhando Varzil e Jandria. - Eles fazem um bom par, não acha? Varzil não sabe o que fazer com ela, e Jandria tem menos paciência ainda de receber instruções de um rapaz de sua própria idade do que Dyannis.
- Devo resgatá-lo, então?
- Oh, não! - os olhos de Maura brilhavam. - Acho que é bom para os dois. Especialmente na Noite do Festival!
Quando a dança acabou, Varzil inclinou-se novamente para Jandria. Ele pôde ver em seus olhos que ela dançaria mais uma rodada ou duas com ele, pois além de gostar de dançar, não se preocupava muito com os flertes usuais. Ele não tinha interesse nela além da diversão mútua dos passos da música.
A dança e a breve conversa que a seguiu havia lhe dado tempo para relaxar, para decidir o que fazer sobre Dyannis. Carolin estava certo, é claro. Ela não rompera nenhuma regra social ao aceitar o convite para dançar com Eduin. Mas não precisava olhar para Eduin daquela maneira tão apaixonada. Ela era muito jovem, muito impressionável por uma corte tão grande. Deveria ter ficado em Hali para os feriados, ou ao menos ter seu irmão presente como guia e acompanhante.
A pergunta de Carolin irritou os confins de sua mente... Ou confia tão pouco nela que deve guardar sua honra a cada instante?
Por que ela tinha que escolher Eduin entre todas as pessoas?
Bem, ele colocaria um fim nisso. Uma palavra ou duas e ela voltaria ao seu juízo normal. Em poucos dias, retornaria a Hali e seu treinamento. Enquanto isso, se quisesse dançar, então ele mesmo dançaria com ela.
Ele a encontrou sentada ao lado de Maura Elhalyn. Enquanto se aproximava, ela ergueu os olhos. Seu pensamento tocou os dele, ainda bem destreinado, mas doce e claro.
Varzil, é tão bom vê-lo bem.
Ela estava tão feliz com ela mesma e suas recém-desenvolvidas habilidades, que ele não teve coragem de mencionar a grosseria de falar através da mente em companhia de não-telepatas. Sorriu e estendeu a mão para ela. Ela parecia um pouco surpresa quando ele a convidou formalmente para a próxima dança.
Diferente da última, leve o bastante para se conversar, esta era cheia de passos vivos e giros complicados com o casal do canto. Varzil tropeçou no seu próprio pé.  
Dyannis riu para ele. - Tem certeza de que está pronto para isso?
- Preferiria que não estivesse, - ele admitiu. - Mas preciso falar com você.
Ela escorregou a mão para a curva de seu cotovelo, confortável e certa de si, e levou-o para fora da pista de dança. A menina teimosa que conheceu quando criança dera lugar a uma charmosa jovem. Quando estavam bem afastados dos outros dançarinos, ela o soltou e olhou diretamente em seus olhos de um jeito que ele achou desconcertante. Se não fosse seu irmão, tal ousadia certamente teria sido motivo para um escândalo.
- Então? - ela disse, uma sobrancelha se erguendo divertida. - Porque está tão triste?
- Preciso falar com você… sobre a dança com Eduin.
- Está se desculpando por não chegar cedo para dançar comigo? Ótimo! Desculpas aceitas. Só isso?
- Não, não é só isso! - Ele queria sacudi-la. - Não quero você dançando com ele. Não é questão de ser apropriado... como Carolin explicou tão corretamente, não há nenhuma objeção. Mas preferiria que você não tivesse nenhum tipo de... - ele procurou a palavra, - ligação com Eduin. Não que fosse durar mais do que dez dias, com seu retorno a Hali e ele a Arilinn. Mas não seria... apropriado.
- E porque não? - as sobrancelhas incolores se uniram como pálidas nuvens de tempestade. - Ele não é um completo laranzu de Arilinn, tão merecedor do carinho de uma mulher quanto você? Há alguma falha de caráter que você notou e o Guardião dele não? Diga-me exatamente porque a objeção por Eduin, e não por Carolin ou Orain ou mesmo aquele libertino do Rakhal? - Ela apertou os olhos. - É por ele não ser suficientemente nobre de nascimento, não é? Deveria ter vergonha, Varzil, de julgar um laranzu por sua família e não por seu caráter e habilidade!
Varzil estendeu sua mão como que barrando suas palavras. - Não fiz tal julgamento, irmã! Nem nunca questionei o talento de Eduin. Tenho trabalhado com ele no círculo o bastante para conhecer sua capacidade. Seu Dom não é a questão aqui. Ele está aliás apenas dançando com você, e não pedindo-a em casamento.
- Exatamente.
- E eu preferia que não dançasse. Como seu irmão e parente mais próximo, eu ordeno...
- Ordena? Não posso acreditar no que estou ouvindo! Você presumiria... não sou seu cavalo, cachorro ou mesmo sua esposa! Se tiver alguma preocupação real, darei a devida consideração, mas não considero seu... seu infundado... irracional... ignorante desejo razão suficiente para nada!
Dyannis parou, respiração pesada, rosto e pescoço corado de nervosismo. Jogando a cabeça para trás e tilintando os sininhos brancos em seu cabelo, ela o empurrou para longe. Sem mais palavras, forçou seu caminho pelo emaranhado de nobres, inconsciente de suas expressões de espanto.



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Forja de Zandru - trecho 57


16



Carolin chegou cedo à câmara do Rei para a primeira audiência desde seu retorno. O guarda admitiu-o pela entrada privada lateral com uma reverência. Ele parou depois da porta, estudando a sala que seria sua um dia. Era uma câmara harmoniosa, senão formal, com uma cadeia de janelas que davam para o leste, clara e bastante aquecida naquela manhã até mesmo para um velho frágil. Ali o rei ouvia juramentos, recebia petições por escrito e decidia outras questões apresentadas a ele por seus conselheiros. Antes aquelas audiências eram frequentes, às vezes diárias, mas na última década, elas se tornaram irregulares enquanto cada vez mais assuntos eram deixados para os subordinados.
Aquilo também irá mudar, agora com o meu retorno.
Carolin lembrou-se de quando vinha ali quando garoto, quando ele e Rakhal sentavam-se com outros nobres para aprender questões da propriedade. Os aromas misturados de poeira e mobília polida aguçaram suas memórias.
Naqueles dias, tudo parecia simples... seu lugar no mundo, as razões das decisões de seu tio, suas noções do que era justo e correto, o que era errado e como devia ser punido. Rakhal era seu primo e companheiro de brincadeiras, e algum dia seria seu fiel conselheiro. Se houve tendências obscuras, manobras ocultas, Carolin estava feliz de não ter tomado conhecimento.
Mas nunca poderia retornar àqueles tempos descomplicados. Era um homem agora, um príncipe pronto para tomar seu lugar no mundo. Devia aprender a pensar e agir como um. As férias em Arilinn tinham acabado.
O pajem que o seguia a todos os lugares parou perto da porta. Carolin começou a rodear o garoto com os seus negócios, depois se controlou. Como perdera rápido o hábito de ter os servos sempre presentes. Foi até o meio círculo de cadeiras atrás das mesas polidas e sentou-se no lugar de sempre ao lado direito do assento elevado do rei.
Minutos depois, pedintes, cortesãos e a audiência encheram a câmara e sentaram-se de acordo com sua posição. Comyn deviam sentar-se em sua própria seção sem divisões, como Dama Liriel Hastur, que tomara a posição mais privilegiada. Pessoas comuns ficavam em pé. Entre eles estavam um juiz da cortes e representantes dos mais velhos da cidade de Hali e Thendara.
Poucos minutos depois, o velho lorde de Elhalyn, que tinha sido conselheiro-chefe de Felix desde antes do nascimento de Carolin, entrou arrastando os pés e sentou-se ao lado do rei. O único assento restante era à direita de Carolin, um lugar reservado ao Rei.
Com um alvoroço e sons das botas dos guardas, Rei Felix entrou. Movia-se com dificuldade, mas dignamente. Rakhal seguia a um passo atrás, seguido por um escriturário carregado de pergaminhos enrolados e papéis. Rakhal colocou uma mão sob o cotovelo do Rei para ajudá-lo a se sentar. Quando Felix estava confortavelmente acomodado, todos se inclinaram cerimoniosamente.
O olhar de Rakhal vacilou em Carolin, sua expressão indefinível. Carolin percebeu o instante de hesitação antes de seu primo dirigir-se ao local vazio.
- Meu garoto, - Felix disse, afagando a mão de Carolin. - É tão bom tê-lo de novo conosco.
Bom, Carolin pensou. O rei estava alerta esta manhã. A incerteza da outra noite deve ter sido algo passageiro. - É bom estar em casa.
As graciosas apresentações restantes logo foram concluídas. Rakhal disse, - Devemos terminar rapidamente para não sobrecarregar Sua Majestade. - Ele gesticulou para que o escriturário colocasse a pilha de documentos diante dele.
Carolin olhou de relance para Lorde Elhalyn, que como conselheiro-chefe, sempre apresentou os trabalhos diários de Rei Felix. O idoso lorde parecia levemente incomodado. Teria algo acontecido, algum escândalo que lhe custara o favor especial do Rei?
O sargento anunciou a abertura da sessão e todos se inclinaram. Rakhal pegou o rolo contendo o trabalho diário e apresentou-o ao Rei, que acenou, concordando em ouvir aqueles casos.
A primeira ordem de serviço era o pedido para financiar a reconstrução da Torre Tramontana. Carolin não pensara que Rei Felix ousaria manter Liriel esperando pelas questões inferiores, não com ela sentada na fileira da frente, costas retas, mãos sobre o colo. Nenhum único detalhe em sua aparência ou comportamento era inapropriado para uma dama de sua posição. Comynara e Hastur. Com sua presença, ela emprestava solenidade aos procedimentos.
Na noite anterior, enquanto Carolin se demorava após seu ultimo copo de vinho com seu tio e Rakhal, ele tocara no assunto. Poucas decisões importantes eram feitas durante a sessão pública. Rakhal já sabia da proposta.
- Quando Tramontana caiu, perdemos um valioso recurso. - Carolin apoiou seu argumento ponto a ponto, procurando cuidadosamente por sinais de que o Rei estava entendendo. - Agora, a comunicação com as Hellers não são confiáveis. Não demorará muito para que nos excluam completamente, ou reduzam a velocidade de mensagens ao passo do cavalo mais rápido.
- Precisamos de um posto avançado por lá, - Rakhal disse, movendo-se incansavelmente em sua cadeira. - Mas as transmissões são o menor de nossos problemas. Quanto mais poderoso se torna Hastur, mais desesperados estarão nossos inimigos. Devemos expandir nossa capacidade de defesa, e isso significa mais Torres sob nosso controle.
- Não sei em que o mundo está se tornando, - Felix disse, balançando a cabeça. - Antigas Torres, novas Torres com o mesmo nome. É tudo tão confuso. Não entendo porque as coisas não conseguem ficar iguais.
- É isso que estamos tentando fazer, Sua Majestade, - Rakhal disse calmamente. - Erguer uma nova Torre no mesmo lugar, para que as coisas fiquem como estavam.
- Ah, sim, então tudo bem, está bom.
Mais tarde, Carolin disse, - Não acho que a leronyn que fez a proposta pensava em um posto militar ou uma fábrica para fogo aderente, mas um lugar para treinar novos estudantes, para fazer um trabalho pacífico e produtivo.
- Eles farão o que mandarmos, - Rakhal respondeu, sorrindo. - Em nome do rei, é claro.
- Vivi junto do povo da Torre, - Carolin o relembrou, - e não abriria mão tão facilmente de sua independência e liberdade de recursos. Sua disciplina é tão grande quanto a de qualquer soldado, e não são camponeses que podem ser castigados se não obedecerem. Acho insensato criar tais expectativas na mente do Rei. As Torres são poderosas por seu próprio direito. Se não concordamos com eles sobre respeito e autodeterminação, chegará o dia em que não teremos escolha.
- O quê, quer que gastemos na reconstrução de uma Torre e não peçamos nada em troca?
Carolin balançou a cabeça. - Pelo contrário, a Torre estaria livre para fazer o que faz melhor.
Lembrou-se daquela conversa naquele momento. Com um pouco de discussão, Rei Felix leu em voz alta a breve declaração aprovando o projeto. Da fileira da frente da seção Comyn, Liriel olhou para Carolin e então, muito levemente, inclinou sua cabeça. Ela podia dever um favor a ele, mas sem dúvida isso não incluía obediência cega.
Os vários documentos seguintes pareciam rotineiros, questões que já haviam sido decididas e requeriam apenas o consentimento do Rei. Havia um pouco de discussão quanto a próxima, uma tarifa disputada entre as cidades de Hali e Thendara. A questão era estranha a Carolin e ele ouviu com interesse enquanto dois representantes apresentavam seus casos. Hali invocou um precedente legal obscuro que Thendara desafiou, pedindo o testemunho do juiz da cortes.
- Devemos pesar o bem-estar das respectivas partes envolvidas, - o juiz disse. - Cada um tem seu interesse aqui. A questão é se a força de seu veredicto anterior é suficiente para contrabalancear os argumentos obrigados pelo dano.
- A questão é clara, - disse Thendara, olhando para Rakhal. - Não podemos permitir que uma minoria desafie os desejos de muitos. Precisamos de um novo precedente, um que esteja baseado na realidade de hoje, não nos caprichos de algum juiz que foi provavelmente subornado.
- Suborno é uma acusação séria, - Carolin disse.
- É exatamente o tipo de caso no qual precisamos de proteção, - Hali replicou. - Sua Majestade, como defensor de todos os seus assuntos, nós lhe apelamos... - Seus olhos se ergueram para a face de Rei Felix, que estivera olhando para fora da janela pelos últimos cinco minutos.
- Vocês todos fizeram suas questões amplamente claras, - Rakhal interrompeu, - e meu tio as dará a devida consideração. Assuntos complicados como este não podem ser decididos tão rapidamente. Voltem no mês seguinte e nós o discutiremos.
Os dois representantes, que há apenas um momento haviam sido adversários, trocaram um olhar assustado. Hali engoliu, visivelmente reprimindo uma réplica.
- Alteza, - o juiz disse, sua voz tensa, - este caso já vem se prolongando por uma estação inteira. As partes concordaram com todos os aspectos exceto este. Sem uma lei exata na percentagem das tarifas, o grão vai ficar parado nos depósitos pelo resto do inverno.
- Não entendo a urgência da situação, - Carolin disse. - Certamente não estragará no frio.
- Já há fome em Thendara, - o representante daquela cidade explicou. - O preço do trigo já ultrapassou o que os pobres podem pagar. Os mais afetados são os que dependem das doações do Rei, pois esses suprimentos vêm com taxas pagas em espécie.
- Deve haver uma lei de qualquer jeito, - disse o juiz. - E devido à decisão anterior ter sido tomada por Sua Majestade, apenas ele pode determinar sua relevância.
- Tio, - Carolin disse, gentilmente interrompendo o devaneio do homem, - Acho sábio dar a esses bons homens uma decisão. É seu próprio povo quem sofrerá se este caso continuar sem uma solução.
- Então suponho que devo, - Rei Felix disse. Ele ergueu seus magros ombros, como se recordando a si mesmo. - Sim... ah... devidamente. Deixe-me ver o registro ao qual se refere.
Rakhal lançou a Carolin um olhar furioso e tateou os papéis, finalmente puxando um. Suas margens estavam descoloridas e curvadas pela idade.
Felix estudou o documento, lábios se movendo enquanto corria os dedos ao longo de cada linha do texto. - Sim, bem... ah... Elhalyn? Lembra-se deste negócio?
O velho lorde endireitou-se na cadeira e seus olhos brilharam. - Majestade, sim. Como vai se recordar, a tarifa base era muito mais baixa naqueles tempos. Esta lei era para ser um aumento temporário para equalizar os custos relativos das diferentes rotas de transporte, mas deste então se tornou permanente. As taxas envolvidas foram aumentadas inúmeras vezes por outras razões. Se esta lei fosse invocada agora, o resultado seria um fardo ainda maior sobre os mercadores que jamais fora pretendido. Que Sua Majestade pretendia na época, isto é.
- É claro, - Rakhal disse, - Sua Majestade é livre para reinterpretar a lei de qualquer maneira que achar conveniente.
Carolin não gostou do tom bajulador de seu primo, nem de seu desrespeito pelo velho lorde. Elhalyn poderia ser reduzida para privilégio real, mas ele ainda era o membro mais velho do conselho e, o que era mais importante, era o único entre eles que relembrava as circunstâncias originais.
O rei suspirou. Seu olhar vagueou à sua direita e por um momento ele pareceu surpreso de ver Carolin sentado ali. - O quê... o quê você aconselharia, meu garoto?
Carolin respirou. O conveniente seria manter o precedente. Os mercadores reclamariam entre si sobre o aumento dos custos, mas encontrariam maneiras de aumentar seus preços para compensar. De um jeito ou de outro, por impostos ou taxas, o preço do grão aumentaria. As pessoas que pagariam pelo menos eram aqueles que podiam arcar com a carga extra.
Por todos aqueles anos atrás, o rei barganhara com seu povo, mesmo que não estivesse na lei. O Rei certamente era capaz de proclamar o que quisesse ou preferisse, o que seus soldados podiam forçar. Mas era justo? Era honesto? Não havia uma obrigação implícita da parte do rei em reconsiderar uma medida temporária quando a necessidade havia passado?
- Eu não concordo com o precedente, - Carolin disse. - Sua Majestade decretou uma tarifa, devido circunstâncias especiais. Não vejo razão nisso agora. O mais importante é permitir que esse grão chegue ao povo que mais precisará dele. Ninguém deveria lucrar de famintos ou indefesos.
Rakhal disse em voz baixa apenas para Carolin, - Se tomar esta posição, Primo, então seus tesouros sumirão em questão de segundos. Como acha que armamos nossos soldados ou pagamos nossos jantares, senão com as tarifas e taxas?
- Isso pode ser verdade, mas se é sábio, é outra questão inteiramente diferente.
Carolin passara muito tempo nas ruas, ali em Hali e em Arilinn, para tão facilmente descartar a vontade do povo.
- Temo que sua temporada em Arilinn o deixou muito balançado, Primo, - Rakhal disse, erguendo uma sobrancelha enquanto dava um sorrisinho para a audiência. - Deveria levar mais em consideração a opinião do rei, e bem menos a da multidão lá fora. É dever deles arcar com suas necessidades, não nossa de comprometer nossos objetivos em lugar dos deles. Recordo-lhe de suas aulas de história. Há uma boa razão para o Comyn comandar e para aquele rebanho cego obedecer.
Carolin encarou-o. Como todas as pessoas educadas de sua geração, ele estudara os piores excessos da Era do Caos, os programas de procriação do laran e os estranhos e terríveis Dons que produziram. Comyn voava para onde quisessem em seus carros-aéreos, suas casas eram aquecidas e iluminadas por laran, e círculos inteiros se dedicavam em fabricar bestas por ganância ou prazer. Até agora, porém, ele pensara pouco sobre como tudo aquilo era pago, e em quantas pessoas trabalharam para que poucos pudessem viver em luxo. Não havia desculpa para a ignorância e o descuido da juventude.
Ambos podem ser remediados, disse a si mesmo, e pensou se o mesmo podia ser dito sobre a ganância.