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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Redescoberta - trecho 5 final



Marion Zimmer Bradley
e
Mercedes Lackey


Leonie Hastur, a voluntariosa e bela filha do clã Hastur, a mais poderosa entre todas as famílias que controlam Darkover, é levada por seu irmão gêmeo, Lorill, para a Torre de Dalereuth a fim de treinar a utilização de seus poderes psíquicos. Embora seja uma coisa que Leonie queria há muito tempo – pois seu laran é tão forte que ela consegue utilizá-lo sem treinamento ou a necessidade de um cristal de matriz – e de ela ambicionar intensamente o poder que possuirá se conseguir se tornar uma Guardiã, ela se encontra extremamente perturbada. Pois uma premonição assustadora a persegue durante o dia e atormenta suas noites, o pressentimento inescapável de que algo está para acontecer – algo monumental e perigoso que se abaterá sobre o seu planeta e o modificará por completo. E tudo o que Leonie sabe com certeza é que isto está se aproximando vindo de uma das quatro luas de Darkover...



Mais um trabalho de tradução concluido pelo Circulo de Hali! Obrigada André!

Agora podemos todos ler mais está obra da Marion por aqui.

Até a proxíma!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Redescoberta - trecho 4

Autores: Marion Zimmer Bradley e Mercedes Lackey
Tradução: André Pereira

...
Quem, ou o quê, poderiam ser esses habitantes? Talvez fosse uma cultura indígena pré-espacial, e nesse caso provavelmente não haveria sinais de civilização visíveis de órbita, ao menos não sem que o céu se encontrasse muito limpo, para que os telescópios óticos pudessem atravessar.
Podia até ser uma colônia perdida, fundada por uma das Naves Perdidas, anteriores ao Império. Isso seria fascinante, embora Ysaye não soubesse de nenhuma tão distante.
Mesmo assim, ela disse a si mesma. Só por que ninguém encontrou nenhuma... bom, talvez fosse por que ninguém procurou no lugar certo.
Uma colônia perdida havia sido encontrada ano passado, e algumas Naves Perdidas mais antigas pareciam ter chegado espantosamente longe, as espaçonaves que foram lançadas alguns milhares de anos atrás, antes dos terráqueos aprenderem a construir naves com rastreadores. As naves perdidas depois disso eram recolhidas dentro de poucos anos. De modo que se fosse uma colônia proveniente de uma Nave Perdida, certamente seria muito antiga, por conta própria desde muito antes do Império.
Por outro lado, mesmo se seu pressentimento estivesse errado, e o lugar fosse desabitado – não que realmente achasse que era, mas até obter uma evidência decisiva, era uma boa idéia considerar todas as possibilidades – era uma boa localização para um espaçoporto de ponto de transferência, próximo do lugar em que os braços espirais da galáxia se encontravam, mais ou menos um bilhão de quilômetros. Assim, caso o planeta fosse habitável, se David e Elizabeth estivessem dispostos a exercer suas especialidades secundárias ao invés das primarias, haveria trabalho o suficiente para a vida inteira, desde que os manda-chuvas decretassem que tal espaçoporto fosse construído ali.
O carrilhão para a troca de turno soou no exato momento em que o técnico-chefe do turno seguinte avançava com facilidade através da rampa gravitacional para o terminal do console. Ysaye desconectou, ele conectou, e ela saiu da sala do computador.
Ao percorrer o corredor descobriu-se esticando músculos doloridos, e per-cebeu que seus ombros, braços e mãos estavam com câimbras e rígidos. Obvia-mente passara mais tempo enredada com pequenos e meticulosos ajustes no núcleo do que percebera. Decidiu passear um pouco antes de ir para o quarto.
Ao passar pela porta escrita “Ponte de Observação” ela decidiu entrar.
– Veio dar uma olhada no nosso novo sistema? – o rapaz indagou quando ela entrou. Era um membro da tripulação científica, Ysaye sabia, de maneira que ele não permaneceria no planeta, a menos que decidissem construir um espaço-porto. Sua tarefa atual era analisar o planeta o máximo possível antes da aterrissagem – e naquele momento todas as informações vinham da sonda. – obrigado por encontrar a irregularidade, Ysaye, estava deixando todos nós loucos – ele continuou. – Isto é, mais loucos.
Ela balançou a cabeça.
– Não foi nada especial. Se eu não tivesse encontrado, outra pessoa teria.
O rapaz lhe endereçou um olhar cético, mas não fez nenhum comentário.
– Suponho que saiba que pelo menos um é habitável – ele continuou –, o quarto. O quinto talvez, mas dificilmente; ele se encontra quase completamente congelado; calotas de gelo o ano inteiro, e a duração do ano é de cinco anos padrões. Mas o quarto só está à margem de habitabilidade; o clima é bastante hostil, mas formas de vida baseadas em carbono podem viver lá. Nenhum grande mar, um continente. Eu não gostaria de viver lá, e duvido que você gostasse; é frio feito o inferno de Dante. Mas definitivamente está dentro dos limites.
– Nada mal, Haldane – disse Ysaye, depois riu. – Ensaiando o relatório para o capitão?
– Adivinhou – John Haldane respondeu, animado. – Ah, eu mencionei que o planeta tem quatro luas, cada uma de uma cor diferente?
Ela balançou a cabeça para o rapaz, e estalou a língua em reprovação.
– Não, você esqueceu isso; precisa organizar melhor o seu material. Quatro luas não é um recorde para um planeta desse tamanho?
Ele fez que sim, parte da atenção no console.
– Talvez você tenha razão; se um planeta possui mais do que isso, normal-mente é um grande gasoso, e as luas têm a aparência de planetas. Como Júpiter no velho sistema solar. Eu esqueci quantas luas finalmente decidiram que tinha; parecia capturar qualquer coisa que se aproximava. Mas havia pelo menos onze dos maiores.
Ysaye espreitou a tela. O objeto de toda a atenção parecia singularmente desinteressante a essa distância.
– Quatro luas. Como é possível?
Haldane encolheu os ombros.
– Quem sabe? Não é a minha especialidade. Creio que o Mundo de Bettmar tem cinco, mas há um limite: a massa das luas combinadas precisa ser menor que a do planeta para ser habitável. Normalmente menos que um quinto do seu peso combinado. Também há um limite para o tamanho; se for muito pequeno, elas escapam da primária e se tornam asteróides. – Ele gesticulou para o visor. – A branca é exatamente do tamanho mínimo.
– Elizabeth estava falando alguma coisa sobre a quantidade de temas para baladas que haveria em um planeta com quatro luas – Ysaye comentou.
Haldane ajustou o foco e a lua branca ficou bem clara na tela.
– Em suposição, eu diria que elas devem fazer coisas estranhas com a mitologia nativa, isto é, se é que existem nativos. Com quatro luas, eu diria que o conceito de monoteísmo não teria muita possibilidade de ocorrer! A vista deve ser formidável da superfície do planeta... todas com cores diferentes. Nunca vi nada parecido antes. Definitivamente anômalo.
Ysaye estreitou os olhos, tentando discernir mais detalhes do planeta, mas se tratava de um enigma encoberto por nuvens.
– Elas realmente têm cores diferentes, ou é só um efeito do sol que lhes dá essa aparência?
Haldane balançou a cabeça.
– Seu palpite é tão bom quanto o meu; eu nunca vi nada parecido... mas eu já disse isso. Mas sei uma coisa – ele acrescentou. – Aposto que, não importa o quanto os nativos sejam avançados, elas ainda representam um papel substancial em qualquer religião que eles possam ter. É o que sempre acontece com as luas.
– Você sabe se vamos aterrissar em alguma delas?
– Provavelmente vamos querer uma estação meteorológica em uma delas. Seria o primeiro passo, em qualquer caso. E, se for uma cultura aborígine pré-espacial, isso é praticamente tudo que podemos fazer; observar o clima. Não teríamos permissão para afetar nada do que eles fazem; sociedades primitivas têm de evoluir à sua própria maneira.
– Se houver uma cultura lá, só aterrissar no planeta os afetará – comentou Ysaye.
– Tem razão – disse Haldane jovialmente –, mas o que nós fizermos antes de providenciar uma avaliação oficial não conta. Deus do céu! Dá uma olhada nisso! – Ele se interrompeu de repente, mexendo nos instrumentos. – Não, não dá para aproximar o foco, droga... as nuvens lá embaixo são formidáveis.
– O que é? – Ysaye debruçou-se sobre o ombro de Haldane para olhar melhor. – Algum sinal de vida? Um sinal luminoso escrito “Olá, estamos aqui, venham nos buscar”? – Como ele não respondesse, ela acrescentou, irreverente: – Uma gigantesca placa publicitária alienígena?
– Nada tão preciso. Tem o efeito da Grande Muralha da China... mas naquele caso era uma estrutura criada deliberadamente. Creio que este é uma formação natural.
– Como o quê? Que espécie de formação seria grande o suficiente para ser avistada dessa distância? A sonda nem está em órbita ainda!
– Uma geleira, maior do que qualquer geleira das idades glaciais da Terra, estendendo-se por metade do planeta. Uma muralha ao redor do mundo.
Uma muralha ao redor do mundo? Isso sem dúvida estimulava o seu interes-se.
– Quem poderia tê-la construído?
– Ninguém; é um fenômeno natural – ele disse positivamente.
– Uma formação natural? – ela contestou em tom cético.
– Por que não? A Grande Muralha da Terra pode ser avistada, sob a devida amplificação, da lua. Houve até alguma discussão a respeito da possibilidade de a Grande Muralha da China ter sido feita assim de propósito, e que eventual-mente a sociedade que a construiu definhou à pré-tecnologia... ou seria pós-tecnologia?
– De qualquer maneira – Ysaye disse repressivamente – eu não o aconselha-ria a discorrer essa teoria em particular para o capitão. Você não ouviu seu discurso padrão sobre a pseudociência das psicocerâmicas?
– Várias vezes – admitiu Haldane, se encolhendo. – Pois muito bem; embora eu ache que se trate de uma geleira natural, dado o clima terrível, não posso afirmar que é uma geleira natural, feita por seres inteligentes residentes, ou abandonada por uma prévia ou visitante sociedade de seres inteligentes. Por tudo o que sei, pode ser o equivalente de um projeto científico escolar para o proverbial homenzinho verde. Ou mesmo um projeto artístico.
– Certo, chega de teorias – Ysaye riu. – Algum sinal de excursões em alguma das luas?
Ele balançou a cabeça.
– Nada evidente. Nada que a sonda possa detectar, de qualquer maneira. Nós deixamos pegadas e lixo sortido na nossa, mas é cedo demais para falar alguma coisa sobre essas. Se nós procurarmos com empenho, talvez encontremos uma lata de cerveja ou coisa do tipo, e isso é uma espécie de prova. Ah, olhe! As nuvens estão limpando!
Ele mexeu em seus instrumentos até a geleira aparecer bem centralizada no mostrador.
– Pelo menos servirá como marco de aterrissagem, embora o terreno provavelmente seja muito irregular e montanhoso. Há um conteúdo de oxigênio maior que o normal, de modo que o super-Himalaia ainda seria escalável, acredite ou não. Caso você goste dessas coisas. Pessoalmente, penso que se Deus quisesse que escalássemos montanhas, teria nos dados cascos e escavadores ao invés de mãos e pés.
– Escalável pelo quê? – Ysaye perguntou, em dúvida. – Você acha que o planeta é habitado?

continua ...

sábado, 16 de julho de 2011

Redescoberta - trecho 3

Autores: Marion Zimmer Bradley e Mercedes Lackey

Tradução: André Pereira

...
– Eu poderia suportar estar empregado novamente – ele admitiu, com um sorriso torto. – Toda essa viajem espacial me faz sentir meio desnecessário. Será bom voltar a trabalhar.
David Lorne não tinha nada de incomum, exceto seus olhos espantosamen-te límpidos, e o modo como olhava fixamente para um interlocutor. Ele era um homem bastante sério, já perdendo cabelo, e com uma aparência de certa forma mais velha do que seus vinte e sete anos, mas dono de um senso de humor sutil e único que ele partilhava com Elizabeth mais que com qualquer outra pessoa.
– O que você realmente quer encontrar lá, David? – ela perguntou, sentin-do-se muito sóbria de repente.
– Um planeta onde eu possa fazer o trabalho da minha vida; coisas interes-santes para comer – respondeu, com a mesma seriedade. – Um lugar que possa-mos tornar nosso; não é o que nós dois queremos? Para que possamos assentar, ter filhos que crescerão para ser nativos deste mundo... seja lá o que ele acabe se revelando.
– Eu de fato ficarei satisfeita em aterrissar numa superfície planetária, qual-quer superfície – ela concordou. – Estou cheia de me sentir supérflua. Não há muita coisa para nós dois fazermos no espaço, exceto apresentar concertos para a tripulação. – Elizabeth não só colecionava e estudava baladas como também as apresentava. Ela tinha um abrangente repertório, e tocava e cantava muito bem, de modo que se descobria na maior demanda para recitais improvisados no salão de recreação, além dos concertos regularmente programados.
– Bom, não há dúvida de que há muitas pessoas para apreciá-los – Ysaye riu. – E temos a nossa reputação para preservar; dizem que somos a única nave da frota em que o capitão escolheu seu engenheiro-chefe por que ele sabia tocar oboé.
Elizabeth deu uma risada. As excentricidades do capitão Enoch Gibbons eram conhecidas por toda a Frota Imperial. Todos na sua tripulação, pessoal da nave ou não, eram, é claro, escolhidos pelas habilidades, mas parecia que o capi-tão Gibbons sempre encontrava tripulantes que, por acaso, eram apaixonados por música. Ao ser contestado a respeito do caso do engenheiro, supostamente argumentara que as universidades militares estavam abarrotadas de bons engen-heiros espaciais; mas bons tocadores de oboé, pelo contrário, eram bastante ra-ros – o oboé era conhecido popularmente como “o instrumento de sopro que ninguém sopra direito”. O capitão Gibbons era um admirador de ópera, e se al-guém da tripulação não tinha um bom conhecimento de italiano, alemão e fran-cês, não era por falta de exposição à pelo menos uma parte do vocabulário des-ses idiomas. Não que fosse uma coisa ruim, refletiu Ysaye, quando decorriam meses sem haver aterrissagem. Certamente era melhor do que ter uma nave re-pleta de atletas amadores enlouquecendo na tentativa de preservar a boa forma – ou uma repleta de jogadores inveterados, que pudessem transformar competi-ções em disputas. Na tripulação de Gibbons, pelo menos, o pessoal podia en-contrar uma harmonia na música que poderia faltar quando a tensão aumentasse com a duração da jornada.
– Não há nada errado em fazer concertos – disse David. – Você é uma exce-lente cantora, e está fazendo sua parte para que a gente não roa as unhas de té-dio.
– Boa o suficiente – Elizabeth concordou, com timidez. – Mas não uma can-tora de ópera.
– Como eu não gosto tanto assim de ópera, não me importo. E duvido que haja muita gente na tripulação que goste, exceto pelo capitão. Embora admita que ninguém que realmente deteste ópera durará muito tempo nesta nave.
– Como seu amigo, tenente Evans? – Perguntou Elizabeth, franzindo o na-riz. Ela não gostava de Evans; o homem a irritava, mas David gostava bastante dele. Havia alguma coisa vagamente inquietante a respeito do tenente, embora Ysaye tivesse dito, em certa ocasião:
– Oh, não ligue para o Evans; ele tem uma grande carreira como vendedor de carros-aéreos usados em seu futuro. – Mas Elizabeth não conseguia descartar o homem com o mesmo pouco-caso.
– Disso, eu não sei – protestou David. – Sim, ele faz comentários grosseiros sobre ópera, não há como discutir, mas esse é só o estilo dele. Ele fala assim so-bre quase tudo. – Ele balançou a cabeça. – De qualquer forma, por que estamos falando de música, com um planeta novo para explorar em poucos dias?
– Por que seu novo planeta é uma possibilidade, e se encontra a dias de dis-tância, enquanto o concerto da tripulação é uma certeza, eu acho – Elizabeth disse, suspirando. – É difícil pensar em qualquer coisa além da rotina quando ainda demorará dias para que possamos sequer chegar perto o bastante para ob-ter fotos decentes do lugar. Eu prometi ao meu departamento que lhes daria as novas sobre o novo planeta logo que houvesse alguma coisa para contar; mas se não há nada, é melhor ir. Estou atrasada.
– Está certo, amor – ele concordou, beijando-a rapidamente. – Até mais.
David e Elizabeth partiram para seus respectivos postos, e Ysaye tornou a se voltar para o console. Mas, ao invés de digitar qualquer coisa que só poderia ser respondida por “dados insuficientes”, sentou em silêncio, ponderando o que-bra-cabeça do planeta habitado.

... continua

sábado, 2 de julho de 2011

Redescoberta - trecho 2

Autores: Marion Zimmer Bradley e Mercedes Lackey
Tradução: André Pereira

...
– Eu não sou uma telepata muito forte – disse Elizabeth com a maior serie-dade, embora Ysaye estivesse brincando. – E, além disso, eu quero que seja habi-tado, de forma que não seria um julgamento imparcial. Você não tem nenhum interesse emocional envolvido; o que acha, Ysaye? Há pessoas lá?
Nem seus pais nem os computadores com que ela trabalhava jamais admiti-ram “Eu não sei” como uma resposta aceitável. Se ainda não conhece a solução, trate de obter mais informação. Quase reflexivamente, Ysaye projetou a mente na direção do planeta e obteve a resposta, sem nenhuma volição consciente ou palavras.
O planeta era habitado; soube disso de repente. Mas não podia explicar co-mo sabia, ou provar, por isso contemporizou:
– Descobriremos muito em breve. Por vocês, eu espero que seja... embora eu vá sentir saudades se vocês deixarem a nave. Precisamos de algo além de uma bola de pedra e poeira; as pessoas estão começando a ficar um pouco excitadas.
Nos últimos meses pequenas excentricidades haviam ameaçado se transfor-mar em verdadeiras neuroses. Ysaye permanecera de certa forma isolada disso, vivendo o máximo possível com seus amados computadores, mas evidentemen-te percebia a situação. Todo mundo procurava se manter apartado dos outros membros das duas tripulações. Até velhos amigos – ou amantes – estavam co-meçando a dar nos nervos uns dos outros.
– De qualquer forma, provavelmente significa alguns meses em terra – disse David, animado – mesmo se não for habitado. Trabalho à beça para nós dois, Elizabeth, nas nossas secundárias, se não nas especialidades. – David Lorne era lingüista e xenocartógrafo, Elizabeth era antropóloga e meteorologista. Todos na nave tinham dois ou três trabalhos – menos Ysaye e o computador, que faziam um pouco de quase tudo.
– Estou ansiosa por isso. Estou ansiosa por espaço. Um lugar onde eu não es-teja sempre trombando com alguém. Toda essa viajem não está levando a lugar algum.
– Isso é engraçado – disse David, irreverente – principalmente se você con-siderar todos os anos-luz que percorremos.
– Eu não quis dizer literalmente – ela retrucou, amarrando a cara para ele – e você sabe disso tão bem quanto eu. Metaforicamente falando, nos encontramos es-tagnados, por mais anos-luz que tenhamos percorrido. Isto é, no que nos diz respeito, daria na mesma se estivéssemos confinados num edifício em Dallas ou San Francisco pelos últimos três anos. Estou farta de estudar manuais e simula-ções de computador. Quero voltar a estudar alguma coisa real.

...continua

domingo, 29 de maio de 2011

Redescoberta - Trecho 1



Autores: Marion Zimmer Bradley e Mercedes Lackey



Tradução: André Pereira




1


− Ysaye? Você está aí em cima? − Cautelosamente, Elizabeth Mackintosh enfiou a cabeça no poço onde ficava o núcleo do computador. Era uma mulher pequena e magra, não exatamente bonita, mas dona de uma vivacidade ao mesmo tempo deli-cada e intensa que tornava a “beleza” irrelevante. Tinha abundantes cabelos escuros e olhos azuis meigos e límpidos, e uma voz que soava, ao ecoar pelo poço, como se ela estivesse cantando. Não se interessava muito pelo computador, e o poço estreito onde ficavam seus componentes funcionais deixava-a positivamente claustrofóbica. Dissera numa ocasião a Ysaye que a escuridão abafada, pontilhada por minúsculas luzes vermelhas, fazia-a sentir-se rodeada por demônios de olhos vermelhos. Ysaye rira, achando que era brincadeira, mas era verdade.
− Termino num minuto − disse Ysaye Barnett. − Só preciso reencaixar essa última placa. − Ela recolocou a placa em que estava trabalhando e pressionou o painel delicadamente para descer pelo tubo. Na gravidade baixa do núcleo, tudo o que precisou foi um pequeno empurrão. A gravidade e a sua velocidade foram aumen-tando conforme se aproximava do fundo, e ela aterrissou de joelhos ao lado de Elizabeth. A gravidade na sala do computador principal era nível oito e Elizabeth, como sempre, encontrava-se aferrada ao corrimão que percorria o centro da sala. Variações gravitacionais a deixavam nervosa; ela vivia na esperança de que um dia a nave encontrasse um planeta onde ela pudesse se estabelecer. Muitas vezes especulava por que inventara de ir para o espaço para começo de conversa... mas então se lembrava de como a Terra era superpovoada, ruidosa e dependente da tecnologia e percebia que jamais poderia voltar. Só os muito ricos podiam pagar por espaço e privacidade na Terra; Elizabeth, com seu minúsculo salário de antropóloga cultural, nunca poderia sequer bancar a privacidade de um diminuto cubículo como aquele que tinha na nave.
Ysaye, pelo contrário, parecia ter nascido para a vida a bordo de uma espaçonave. Zonas de alterações gravitacionais eram brincadeira para ela – meio como uma versão adulta de amarelinha. Mantinha seus cabelos crespos escuros trançados meticulosamente, a fim de não embaraçá-los no rosto, no equipamento com que trabalhava ou nos dutos de ventilação. O seu alojamento estava sempre tão arrumado que mesmo se a gravidade fosse anulada ainda assim nada sairia do lugar; conhecia as programações, procedimentos e exercícios de emergência da nave de trás para frente. Os oficiais inferiores afirmavam que literalmente todas as informações do computador estavam duplicadas no cérebro de Ysaye e que tais informações podi-am ser acessadas de ambas as fontes com a mesma rapidez.
Um homem que trabalhava no terceiro turno chegava a jurar que o computador acordava à noite e chamava por ela. Ysaye informara-o, com uma expressão marota nos olhos castanhos brilhantes, que ele precisava tomar cuidado com sua tendência ao antropomorfismo. Não que Ysaye não falasse com o computador, naturalmente; mas ela procurava nunca fazer isso quando alguém pudesse ouvir. Afinal, ela tinha uma reputação como cientista para preservar.
– Isto deve resolver nossa pequena irregularidade – comentou Ysaye, satisfeita. Nada lhe proporcionava mais alegria do que encontrar a solução para um quebra-cabeça, e esse em especial vinha atormentando os técnicos há dias, uma Perda-de-Sinal intermitente da sonda-robô que precedia a nave em cerca de um dia. – Eu falei que o problema estava no nosso hardware e não no da sonda. E eu vou arrancar o couro de alguém por não efetuar testes regulares para verificar esse tipo de coisa.
– Mais alguma novidade sobre o nosso novo planeta? – David Lorne, noivo de Elizabeth, entrou avançando cautelosamente pelo corrimão para encontrar as mulheres. Elizabeth estendeu a mão automaticamente e ele pegou-a com automatismo equivalente. Como uma reação fototrópica, pensou Ysaye. David era o sol de Elizabeth, e às vezes parecia que sem ele Elizabeth poderia murchar e morrer.
– Nenhum nome – ela respondeu, passando automaticamente para a forma de referência bibliotecária e digitando comandos no console. – Mesmo a estrela só se encontra na categoria de não-abreviadas. Estrela Cottman. Seis planetas, de acordo com nossos registros, mas – ela fez surgir um diagrama na tela do console – as últimas informações de varredura acrescentam um sétimo. Três pequenos planetas rochosos e quatro grandes gasosos. O quarto a partir do sol é habitável, ou ao menos limitadamente habitável. Há escassez de metais pesados, mas não seria o primeiro planeta colonizado escasso em metais. Mas é pleno de oxigênio.
– É aquele com as quatro luas? Que exótico... acho que daria muitos temas para baladas – comentou Elizabeth.
– Acontece que tudo lhe dá idéias para baladas – disse Ysaye afetuosamente.
– E por que não? – ela retrucou com a maior seriedade. Ysaye balançou a cabeça. Elizabeth tinha a mania de relacionar tudo com alguma balada. Estava certo que música folclória era o seu hobby e antropologia sua especialidade, e estava certo que uma tremenda quantidade de histórias primitivas era encontrada em canções e baladas, mas... havia um limite, ao menos no que dizia respeito a Ysaye. A ocasião em que Elizabeth quisera comparar a sua tendência a desaparecer por dias quando estava investigando um defeito no computador à abdução do trovador Thomas pela rainha do reino encantado... demoraram semanas para Ysaye tirar da cabeça toda a baboseira sobre elfos e fadas morando no núcleo.
– É habitado? – indagou David. – Isto é, algum sinal de seres inteligentes? – Para Elizabeth e David, era essa a questão prioritária. Não fazia muita diferença para Ysaye; ela pertencia à tripulação. Mas David e Elizabeth queriam se casar e formar uma família, e não poderiam fazer isso na espaçonave. Crianças não podiam nem viajar numa nave – não se quiserem desenvolver qualquer coisa similar a um esqueleto humano. Corpos imaturos eram muito mais frágeis do que as pessoas imaginavam. Eles ainda dispunham de tempo; os três haviam entrado para o Serviço logo ao sair da universidade e ainda não haviam completado trinta anos. Teoricamente, eventualmente seria descoberto um planeta adequado para colonização ou um centro de comunicação do Império onde as equipes de comunicação e exploração poderiam se instalar e continuar durante vinte anos ou mais. Mas após três anos sem nada exceto meteoritos, Elizabeth, pelo menos, estava ficando ansiosa.
– Vocês dois são telepatas – Ysaye brincou – digam vocês. – Foi como eles se conheceram, como voluntários para uma experiência no laboratório parapsicológico da universidade. Infelizmente os instrumentos não haviam sido preparados para medir amor à primeira vista, ou talvez tivessem obtido informações bem interessantes. Ysaye estava trabalhando como técnica naquele dia, e registrara diligentemente todas as outras coisas que as máquinas mediram. Mas nun-=ca contou a ninguém os outros efeitos que viu – ou pensou que viu. Afinal, “ver auras” era uma experiência muito subjetiva.
Elizabeth não era de forma nenhuma reticente com relação ao seu “dom” – muito embora se mostrasse um pouco defensiva. David simplesmente não ligava; se as pessoas não acreditavam nele, era problema delas, e não dele. Se devidamente pressionada, Ysaye admitia possuir uma certa intuição, ou o ocasional pressentimento. Fora isso, ela preferia não falar a respeito. “Coisas invisíveis para o olhar” e o conhecimento que ela possuía a partir de nenhuma fonte discernível eram coisas que ela utilizava, mas não comentava.
Ela sempre fora um pouco solitária, e seu “talento” a tornara ainda mais só. Aprendera desde cedo a transmitir as coisas que “sabia” na forma de perguntas às pessoas; uma criança não corrigia os adultos na sua família, provavelmente por que se supunha que qualquer criança sabia menos que qualquer adulto. Mas Ysaye tinha muita dificuldade para esconder o que sabia, de maneira que optara pela solidão como uma melhor alternativa de “esconderijo”.
Ysaye também procurara ocultar sua inteligência com o maior cuidado, por trás de uma máscara de inocência infantil, e passara todos os instantes possíveis com o computador. Isso não foi tão difícil quanto seria para outra criança; seus pais tinhamna matriculado em instrução computadorizada – chamavam de “ensino doméstico” – ao invés de mandá-la para a escola pública. Eles achavam os valores ensinados nas escolas terráqueas irreligiosos e miseravelmente deficientes em éticas, morais qualquer diferenciação entre certo e errado, um tema que sua mãe considerava particularmente importante. Ysaye às vezes ainda podia escutar sua mãe no fundo da sua mente sempre que alguém se entregava a éticas duvidosas e lógicas confusas.


continua...