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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 19

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine

...
Fiolon também já estava no chão, carregando o corpo desmaiado de Quasi, ignorando completamente os pássaros de alçavam vôo ao seu lado.
- Quasi! - chamou aflito, sacudindo o pequeno oddling. - Acorde!
A dama caminhou rapidamente em sua direção e estendeu a mão meio sem jeito para tocar na testa de Quasi de leve.
- Ele não pode ouvir você - disse ela secamente. - Tragam ele para cá. Sigam-me.
Ela deu meia volta e entrou na torre por uma porta, sem olhar para trás.
Mikayla ajudou Fiolon a erguer o corpo de Quasi. Ficou aflita ao perceber que ele estava frio e não reagia, enquanto Fiolon e ela, duros de frio e limitados pelas roupas congeladas, lutavam para manobrá-lo pela porta. Quasi nem se encolheu quando trombaram com ele sem querer no batente da porta.
Quando entraram viram a mulher parada no final do corredor, olhando para o pé da escada. Ouviram o som de passos leves correndo em sua direção, seguidos pela chegada de cinco servos, três nyssomus e dois vispis. Mikayla nunca tinha visto um vispi, mas os reconheceu imediatamente pelas descrições no livros que Fiolon e ela tinham lido.
Os vispis pareciam mais humanos que os nyssomus, eram mais altos, de rostos mais estreitos, e o que Mikayla achou que eram narizes normais, e bocas com dentes pequenos e iguais. Como os nyssomus, tinham olhos maiores que os olhos humanos, mas eram verdes e não amarelos. Tinham cabelos prateados e orelhas pontudas, três dedos em cada mão e unhas que eram garras.
- Bem vinda de volta, senhora Haramis, disse a mulher nyssomu respeitosamente.
- Obrigada - Haramis respondeu rapidamente, indicando a forma inerte de Quasi e apotando para os dois nyssomus. - Você e você, levem ele e tratem de esquentá-lo. Você - disse para a mulher vispi, indicando Mikayla - leve a menina, dê um banho e roupas para ela - para o homem vispi ela acrescentou: - Você leva o menino.
Livre do corpo de Quasi e sendo levada por outra escada, Mikayla ouviu Haramis dar mais uma ordem.
- Prepare um banho para mim, Enya, e se certifique de que o fogo está aceso em meu estúdio. Vamos comer lá quando as crianças estiverem prontas.

continua...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 18

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine


...

- Mikayla, - disse ela, estendendo a mão para segurar a menina pelo braço - senta aqui na minha frente - ela ergueu Mikayla no ar e a sentou. - Fiolon - acrescentou, apontando o segundo pássaro. - sobe nesse.
Fiolon se moveu devagar para obedecer ao comando, olhando desconfiado para o grande pássaro e arrastando Quasi com ele. O oddling hesitou até a mulher fazer um sinal para ele com a cabeça, então sentou encostado ao pescoço do pássaro.
A mulher disse algo para os lammergeiers e eles voaram. Mikayla teria achado que era um sonho, se não sentisse dor no braço onde a dama a havia puxado, e a sensação extremamente desagradável das roupas encharcadas congelando no corpo enquanto voavam, o que serviu para convencê-la de que estava acordada, e pelo menos naquele minuto, viva.
Em uma hora chegaram à torre - a mesma distância que Haramis tinha atravessado com tanta dificuldade com seus froniais.
Mikayla notou que quando o pássaro que a levava começou a descer o ar ficou um pouco mais pesado e quente - apesar de quente ser um termo relativo naquele lugar. Ela ergueu um pouco a cabeça, pois tinha se aninhado nas penas do pássaro para se proteger do vento cortante, e olhou por trás do pescoço do lammergeier. Ele descia na direção de uma torre branca, construída em cima de um platô na montanha. Poderia ser invisível com a neve em volta, se não estivesse toda decorada com tecido negro trançado em volta de todas as janelas e ameias também negras, no topo. Havia um terraço grande o suficiente para os lemmergeiers aterrissarem, e parecia que esse era o destino deles.
Os pássaros desceram encolhendo as asas, e Mikayla, livre do abraço da mulher, deslizou para o chão. A essa altura sua roupa estava inteira congelada e estalava quando andava. Ela se virou para ver se Fiolon estava bem.


continua...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 17

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine


Capítulo 4

Felizmente o barco estavamuito perto da margem oposta do Mutar Meridional quando virou, e a corrente carregou-os para aquela direção. Filon conseguiu ficar em pé rapidamente, agarrou Quasi e o empurrou para cima da margem.
Mikayla subiu em um cobertor que flutuava na superfície. Na primeira tentativa de respirar, o cobertor encheu sua boca, por isso o cuspiu e mergulhou novamente, subindo com as mãos para cima para ficar em pé. Ficou limitada na bolsa de ar formada por suas mãos e sua cabeça. Andando com muito cuidado para trás e mantendo as mão erguidas, manteve o espaço com ar até sair de debaixo do cobertor e ver Filon olhando fixamente para ela.
- Isso foi muito estranho. - disse ele - Por um instante tive medo que você se afogasse.
- Não, - disse Mikayla - mas achei que ia respirar o cobertor inteiro.
Os dois agarraram o cobertor para fora da água e o estenderam num galho para secar, sabendo que iam precisar dele quando caísse a noite.
- Veja pelo lado positivo, - disse Mikayla, espremendo as tranças papa tirar a água - pelo menos estamos fora do território dos skriteks.
- E não muito longe de casa. - acrescentou Fiolon - Quasi, você consegue se comunicar com sua aldeia?
Alguns oddlings podiam se comunicar telepaticamente à curtas distâncias, e Quasi era bastante talentoso nisso.
Mas Quasi estava mudo e olhava fixamente para o céu. As crianças seguiram seu olhar e viram dois pássaros enormes descendo na direção deles.
Eram pelo menos três vezes maior que qualquer pássaro que Mikayla tinha visto na vida, e quando chegaram perto percebeu que eles eram ainda maiores do que tinha imaginado. Os corpos eram brancos, quase do tamanho de um fronial, as asas manchadas de negro e o pescoço e a cabeça sem penas, quase da mesma cor da pele de Mikayla. Os olhos eram negros e inteligentes, como Mikayla nunca vira em um pássaro antes. Os bicos eram marrom escuro com um furo de cada lado, perto dos olhos.
Em poucos segundos os pássaros desceram do céu e aterrissaram ao lado dos viajantes cobertos de lama. Uma estranha mulher estava sentada nas costas de um dos pássaros. As crianças ficaram olhando, maravilhadas.
- Eu não sabia que pássaros podiam carregar pessoas. - disse Mikayla a Fiolon.
Fiolon não respondeu, ficou simplesmente sentado ali, olhando.
Mas a dama parecia impaciente.

continua...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 16

Autor: Marion Zimmer Bradley

Tradução: Ariane Pierine


...

- Não preciso olhar, posso ouvir. Elas parecem mesmo estranhas tocando todas juntas, não é? Quantas têm aí?
- Sete – respondeu Fiolon, guardando algumas no saco preso ao cinto.
Mikayla foi para perto e guardou o resto na sua bolsa. Tudo ficou silencioso quando os artefatos ficaram sem luz.
- Podemos ir agora? – perguntou Quasi de fora do prédio. – Por favor?
Mikayla e Fiolon trocaram olhares resignados.
- Bom – admitiu Fiolon -, creio que podemos. Não tenho certeza, Mika, mas acho que temos até uma duplicata aqui.
- E não sabemos quantas daquelas larvas horrorosas de skriteks sobreviveram, e se vão descer o rio – admitiu Mikayla. – E podemos voltar um dia, quando não for a época de desova dos skriteks.
- Ótimo – disse Quasi, animado. – Vamos sair daqui... gostaria de chegar inteiro em casa!
Mikayla enfiou a pequena esfera na túnica para não enganchar nas coisas pelo caminho de volta para os barcos, apagaram as tochas e retornaram ao rio.
Quasi examinou os barcos com tristeza.
- É melhor deixar um aqui – ele disse. – Cabemos todos em um só, e chegaremos em casa muito mais depressa se não tivermos nós três de manobrar os dois barcos.
Os dois concordaram, e rapidamente transferiram os suprimentos restantes para um único barco. Puxaram o outro bem para cima da margem e o deixaram emborcado.
- podemos recuperá-lo da próxima vez que viermos para cá – disse Mikayla.
Quasi bufou e empurrou o barco para longe da margem.
O rio carregou-os rapidamente a favor da correnteza, e logo estavam se aproximando do ponto em que o Golobar desaguava no Mutar Meridional. Mikayla apertou os olhos, tentando obter uma visão melhor da água à frente.
- A corrente parece muito mais rápida do que quando subimos o rio – ela observou atentamente.
Quasi olhou naquela direção e exclamou assustado.
- Abaixem-se e segurem firme no barco – ele ordenou, mas quando as crianças se apressaram em obedecer, o barco entrou no Mutar Meridional e virou de ponta cabeça, como um barquinho de brinquedo num vento forte.


continua...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 15

Autor: Marion Zimmer Bradley

Tradução: Ariane Pierine


...

Fio deu de ombros.
- Não se pode encostar nisso sem destruir. Vou verificar os armários. Se houver alguma caixa de música nesta sala, ela deve estar num dos armários.
- Senão já estaríamos ouvindo suas músicas agora – concordou Mikayla. – Vou dar uma espiada rápida no resto das estantes, depois começo na outra ponta dos armários e nos encontramos no meio.
Fiolon concordou com um grunhido, já abrindo os armários de forma metódica. Mikayla passou pelo resto das roupas, cuidando para não esbarrar nelas, e chegou a uma estante cheia de esferas prateadas com o diâmetro da unha do polegar. Cada esfera tinha uma argola presa por cima e todas estavam penduradas com fitas coloridas, feitas de algum tecido que Mikayla nunca tinha visto. Julgando pelo comprimento da fita, deviam servir como um tipo de pingente, e estavam arrumadas aos pares. Mikayla tocou numa de leve com a ponta do dedo e ouviu uma nota suave quando a esfera balançou para trás e para frente.
Embora muito suave, o som chamou a atenção de Fiolon.
- O que você encontrou aí? – ele perguntou, juntando-se a ela.
- Eu não sei – disse Mikayla – mas são lindinhas, não são?
Fiolon já estava testando o tom de cada uma, para cima e para baixo da estante.
- As cores diferentes são notas diferentes – ele disse, distraído.
- Eu gosto dessa – Mikayla pegou uma de um par com fitas verdes e pendurou no pescoço. – Pronto – ela disse, enfiando a outra pela cabeça de Fiolon - , pelo menos encontramos algo musical.
Ela passou a mão na fita em volta do pescoço.
- Não sei do que é feita essa fita, mas é mais resistente que seda – ela foi para a outra extremidade dos armários. – Agora vou começar a examinar a minha parte dos armários.
Fiolon sacudiu a esfera de som perto de cada orelha, depois enfiou-a na túnica, antes de voltar aos armários. Explorou mais alguns e então ouviu uma cacofonia de sons ao abrir outro.
- Olhe, Mika! – ele gritou.
Mikayla riu.


...continua

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 14

Autor: Marion Zimmer Bradley

Tradução: Ariane Pierine

...
Ela segurou o braço dele e o puxou para dentro do prédio. A construção era de pedra, formada por salas enormes, com grandes janelas de treliça que deixavam entrar muita luz. Apesar das trepadeiras que se enroscavam nas treliças, havia claridade suficiente para não precisarem de tochas.
- Queria saber se isso foi uma escola – disse Mikayla quando passaram por uma sala cheia de bancos e mesas.
- Talvez fosse um teatro – Fiolon chegou antes dela na sala seguinte. – Olhe como os bancos estão dispostos em tablados em volta do palco.
- É – disse Mikayla –, isso parece mesmo com um retrato de um teatro que vi num livro em casa. Mas uma escola também não poderia ter um teatro?
- Teria que ser uma escola muito rica – observou Fiolon.
- Quem sabe, se comparados conosco, os Desaparecidos não eram ricos – disse Mikayla. – Mesmo alguns artefatos que podem ter sido apenas quinquilharias para eles têm um preço incalculável para nós – ela colocou a cabeça numa porta e espiou uma sala menor atrás do palco. – Acho que isso é um tipo de depósito, mas está escuro. Você tem uma tocha?
Quasi apresentou de má vontade uma tocha e uma caixa de pavios, resmungando que algumas coisas talvez não devessem ser iluminadas.
Mikayla ignorou o mau humor dele, mas agradeceu e tirou a tocha da mão do oddling. Juntos, Fiolon e ela entraram na sala e ficaram boquiabertos de espanto. A sala era cheia de estantes, prateleiras e armários. Fiolon voltou para a sala do teatro para pegar outra tocha com Quasi, enquanto Mikayla começava a examinar as prateleiras. A primeira estava cheia de máscaras estilizadas, mas definitivamente de rostos humanos, na forma e na cor. Tinham buracos no lugar dos olhos para o usuário poder enxergar através deles, e um buraco menor no lugar da boca, obviamente para respirar e falar. Ao lado da prateleira havia um cabide com fantasias, mas quando Mikayla tentou tirar uma, ela se desfez na sua mão. A menina ficou desolada.
- O que foi que eu fiz?
Fiolon acendeu sua tocha na dela e tocou os fragmentos no chão. Desmancharam ainda mais quando ele os tocou.
- Você não fez nada, Mika. – ele procurou tranqüilizá-la. – Isso é um tipo de seda, e seda apodrece com o tempo. Qualquer coisa que encostasse aí ia destruir tudo.
- Ainda bem – disse Mikayla. – Odiaria pensar que estava destruindo peças valiosas da história.

continua...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 13

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine

...
- Suponho que aquele... que aquela coisa era um skritek, e que as coisas redondas como pedras eram ovos de skritek – disse Fiolon.
Quasi, no banco de trás deles, segurava o leme, e confirmou muito sério que era aquilo mesmo. Mikayla estremeceu e olhou para a margem.
- Posso lidar com os skriteks adultos, mas não com aquelas coisas! Gosto menos ainda deles agora que os vi tão de perto – ela observou. – E nunca mais quero chegar perto de um deles. Se foi você que atirou aquela pedra, Fiolon, obrigada. Acho que salvou minha vida. O que vamos fazer agora?
- Acho que devemos voltar para as ruínas – disse Fiolon com a voz trêmula. – Prefiro enfrentar vozes estranhas a um filhote de skritek.
- Concordo – disse Mikayla. – Olhe aqueles ovos!
Na margem outros ovos balançavam e rachavam em vários pontos. Quando cada um dos filhotes que surgia avançava na direção do resto, um de seus companheiros recém-nascidos caía sobre ele, estalando aqueles dentes horríveis, e o fazia em pedaços. Logo toda a praia era uma massa de garras, presas e filhotes arrebentados, espalhados e lambuzados com seu horroroso sangre preto-esverdeado. O grupo desviou os olhos enojado enquanto os barcos deslizavam rapidamente rio abaixo.
Por alguns minutos os três ficaram em silêncio nos barcos. Fiolon estava de pé na proa, pilotando entre as margens escuras, enquanto Quasi continuava a segurar as embarcações juntas. Mikayla, ainda um pouco trêmula, foi ajudar Quasi. É claro que já tinha visto os famosos afogados antes, mas com os poucos que encontrou tinha conseguido se entender. Criaturas com as quais não podia se comunicar ou argumentar eram outra história, e bem diferente!


Mikayla e Fiolon despertaram ao amanhecer, prontos para explorar as ruínas. Quasi não estava nem um pouco animado, mas já que suas opções eram ficar sozinho para trás ou acompanhar as crianças, ele foi com eles, resmungando o tempo todo.
Caminharam com todo cuidado, tateando pelo caminho cheio de mato que levava às ruínas, de olho em qualquer ovo que parecesse com uma pedra, mas não encontraram nenhum.
- Acho que o lugar de desova deles é rio acima, não aqui – comentou Fiolon.
- Esperamos que sim – disse Quasi, carrancudo.
- Não sinto nenhum perigo aqui – observou Mikayla. – Quasi, você disse que quem vinha aqui ouvia vozes... mas há alguma história de alguém ter sido atacado aqui?
- A maioria das pessoas, princesa, tem bastante juízo para correr quando ouve vozes estranhas – disse Quasi maldosamente.
- Em outras palavras, não – traduziu Mikayla. – Ninguém nunca saiu ferido daqui.
- Não que se saiba – Quasi não parecia satisfeito.
- Vamos ficar de olho nos esqueletos, então – disse Mikayla, sentindo-se muito mais animada, apesar dos avisos do oddling.
- Olhem – exclamou Fiolon, tão de repente que Mikayla achou que ele de fato tinha encontrado um esqueleto. – Aquele prédio lá na frente... parece intacto.
As duas crianças saíram correndo, e Quasi foi atrás, muito infeliz.
O prédio estava mesmo inteiro, e quando cruzaram a porta, as vozes que Quasi mencionou começaram.
- Elas não parecem ameaçadoras – observou Mikayla, parando para ouvir.
Fiolon escutava atentamente.
- Acho que estão dizendo a mesma coisa em línguas diferentes, uma espécie de discurso de boas-vindas ou proclamação, talvez. Ouçam as cadências. Estão vendo como são similares?
Mikayla ficou ouvindo até as vozes pararem, mas balançou a cabeça.
- Eu não tenho o seu ouvido, Fiolon, mas tenho certeza que você tem razão. Venha, músico mestre, vamos ver se encontramos outra caixa de música para você.

continua...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Senhora do Trílio - trecho 12

Autor: Marion Zimmer Bradley

Tradução: Ariane Pierine

...
- Mika? – Fiolon, ainda no barco, olhou para ela querendo saber o que estava acontecendo. – Qual é o problema?
- Alguma coisa – disse Mikayla -, mas não sei exatamente o que é. Tenho a impressão de que alguma coisa está errada, alguma coisa no solo.
Traneo já tinha saído do barco e andava a esmo, resolvendo exatamente onde deveriam montar acampamento. Mikayla foi atrás dele, movendo-se devagar e tentando descobrir a causa da sua apreensão.
Chegou ao lugar cheio de pedras lisas e tropeçou em uma delas. Espantou-se ao perceber que não era dura, mas macia, parecendo couro. Enquanto estava ali parada olhando, a pedra começou a balançar lentamente, de um lado para outro. Não achava que tivesse chutado com tanta força, ou tinha? Continuou olhando, espantada, e a coisa rachou, comum ruído estranho de algo rasgando, e da rachadura que aumentava um focinho feio e verde apareceu, com dois círculos negros saltados em cima.
Mikayla jamais tinha visto um skritek em forma de larva, mas não precisava que ninguém explicasse que estava vendo um naquele momento. A boca feia do bicho abriu-se, revelando duas fileiras de dentes espantosamente longos e afiados, sem as presas de um adulto, e ele era apenas um sétimo do tamanho de um skritek desenvolvido.
Ela estava totalmente despreparada para a rapidez com que a coisa feia se moveu. Embora não tivesse mais de trinta centímetros de altura, parecia crescer diante dos seus olhos. Ele correu com velocidade espantosa na direção dos dois, agarrou Traneo e começou a arrastá-lo para a água. Para horror de Mikayla, o animal começou a devorar o nyssomu antes mesmo de matá-lo. Traneo deu um berro.
Mikayla não acreditava que a criatura já pudesse ver – uma película de couro branco cobria parte dos olhos saltados – mas enquanto estava ali olhando, meio paralisada de choque, ele acabou de arrancar a cabeça do oddling a dentadas. O berro de Traneo foi interrompido no meio de um uivo, e só deu para ver a água respingando no lugar em que o nyssomu afundou, levado pelo pavoroso filhote de skritek.
Mikayla deu um pulo para trás, tropeçou numa pedra e caiu estatelada na areia. O terror tomou conta dela. Tinha encarado a morte antes, quando caçava, mas nunca de uma forma tão horrenda. Apressou em se levantar, mas um outro ovo estremeceu sob seu pé, derrubando-a no chão diante de outra larva de skritek que surgia. Tinha caído de costas e ficou sem ar, por isso continuou deitada e indefesa por um momento. O pequeno skritek já abria a boca quando uma pedra apareceu voando de trás dela e atingiu o longo focinho do skritek. Ele cambaleou de costas e caiu de lado.
Chorando de alívio, Mikayla conseguiu ficar de pé e chocou-se com Fiolon, que com mais brutalidade que galanteria arrastou-a para um barco e afastou-se da margem. No meio do rio Mikayla recuperou um pouco o controle. Ainda chorava por Traneo – ninguém devia morrer daquele jeito, literalmente devorado vivo – mas pelo menos não estava mais histérica, e conseguiu soltar o braço de Fiolon, que assim teve mais facilidade de pilotar o barco.

...continua

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 11

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine

...
Mikayla ficou tão espantada com a absoluta certeza na voz de Fiolon e com a provável verdade do que dizia, que por um momento ficou sem saber o que dizer. Depois virou para Quasi e falou com ele.
- Mas você ainda não disse por que essas ruínas podem ser perigosas.
- Bom – disse Quasi nervoso, revirando os olhos – elas ainda estão vivas.
- Vivas? – disse Fiolon – As ruínas? Você está dizendo que os prédios eram... e ainda são.. vivos? Nunca ouvi dizer que os Desaparecidos pudessem construir prédios vivos.
- Se qualquer um entrar neles – Quasi disse, com a voz trêmula – surge vozes do chão e falam uma língua desconhecida.
- E se ainda existirem alguns aparelhos dos Desaparecidos funcionando por lá? – disse Mikayla animada – Precisamos entrar!
- Agora não! – disse Traneo aflito – Já é quase noite. Por favor, princesa, não faça nada precipitado. Pense mais um pouco. Não entre até amanhecer, se é que vai entrar mesmo.
- Tudo bem então. Vamos encontrar um lugar seguro para montar o acampamento – disse Mikayla. – E... eu não sei quanto a vocês, mas eu estou ficando com fome. Vocês não?
- Eu andei com fome a maior parte desses três dias – disse Fiolon, direto e calmo. – Foi você quem insistiu em racionar nossos suprimentos.
- Continuo achando que é uma boa idéia – disse Mikayla, - porque, se ficarmos sem comida, teremos de voltar para casa. E não quero fazer isso... ainda não.
- Então o que acha que devemos fazer? – Quis saber Fiolon.
- Acho que devemos deixar Quasi e Traneo encontrar um bom lugar para acampar.
Fiolon virou para Quasi, que disse:
- Não temos muito tempo antes de escurecer, meu senhor, mas farei o melhor possível.
Eles continuaram subindo o rio por um tempo, então Traneo fez um sinal para levarem os barcos para a margem num pequeno promontório, coberto de pedras lisas e redondas.
- Podemos testar aqui, lorde Fiolon. Nesse lugar, pelo menos, os skriteks não podem se esconder no mato alto.
- Certamente não podem – concordou Mikayla. – aqui não há capim alto o suficiente para ocultar nada maior que um funt do prado.
Ela pulou para fora do barco para procurar capim seco para acender o fogo. Mas no momento que colocou os pés no chão ficou paralisada.

...continua

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Senhora do Trilio - trecho 10

Autor: Marion Zimmer Bradley

Tradução: Ariane Pierine

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Capítulo 3

O rio estava com uma profundidade exata para os barcos com fundo chato que os nyssomus usavam para chegar até as ruínas. Mikayla, Fiolon e os guias nyssomus Quasi e Traneo passaram vários dias trocando de lugar nos barcos, assumindo seus turnos para impulsioná-los com as varas através dos baixios e remando rio acima quando as águas eram suficientemente profundas. Era um trabalho duro, mas eles não desanimavam, desde o nascer até o pôr-do-sol de cada dia.
Quando ficava escuro demais para enxergar para onde estavam indo, puxavam os barcos para a margem, comiam uma porção cuidadosamente racionada da carne seca que levavam para a viagem, e dormiam em um dos barcos, com os outros virados para baixo e bem amarrados em cima. Dessa forma não precisavam ficar vigiando à noite. Os skriteks, únicos predadores grandes o suficiente para quebrar os barcos, não incomodavam os seres humanos sem provocação, e desde que Quasi e Traneo dormissem entre Mikayla e Fiolon, seu cheiro não seria percebido por um skritek de passagem por ali. Na verdade, quando atingiram o território dos skriteks, todos cheiravam mais a pântano que qualquer outra coisa.
Tinham passado quase dois dias viajando pelo território dos skriteks quando sinais das ruínas que procuravam apareceram na beira do rio.
Fiolon apontou entusiasmado:
- Olhem, havia uma aldeia aqui um dia. Talvez nessas ruínas a gente encontre mais caixas de música...ou outra coisa interessante.
- Não acredito que possa haver alguma coisa interessante assim – implicou Mikayla. – pelo menos não para você.
- Princesa – aventurou-se um dos guias oddlings, o pequeno nyssomu chamado Quasi. – vocês não devem se preocupar em entrar nessas ruínas. As que ficam mais acima são mais interessantes.
Mikayla olhou para ele desconfiada.
- Você quer que a gente viaje mais longe ainda rio acima, através do território dos skriteks, correndo um perigo ainda maior de encontrá-los? O que há de errado com essas ruínas?
- Elas parecem ótimas para mim – protestou Fiolon – e eu quero descobrir mais sobre os Desaparecidos.
- E eu realmente quero encontrar mais dessas caixas de música – acrescentou Mikayla – para ver como funcionam.
Traneo, parecendo assustado com alguma coisa, arriscou-se a falar:
- O rei ficaria muito zangado se acontecesse algo com você, meu senhor. Ele me encarregou diretamente de garantir que nenhum mal lhe aconteça, ou à princesa.
- Isso é bobagem, disse Fiolon. – O rei não se importa com o que eu faço. Acho que ele nem sabe que estamos aqui.

...continua.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Senhora do Trilio - trecho 9

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine

...
Não se preocupe, mamãe. Os skriteks não vão machucar Mika – uma criança soou com segurança da porta. – Ela conversa com eles e eles a deixam em paz.
Haramis duvidou da veracidade dessa afirmação. Ela certamente podia afastar os skriteks com uma ordem, mas ela era a arquimaga.
Os skriteks, normalmente chamados de afogados, eram conhecidos pelo hábito de se esconder embaixo da água à espera das presas, que podiam ser todos os outros oddlings (como os nyssomus) e animais grandes, arrastando-os para baixo para morrerem afogados antes de serem devorados. Seus hábitos de caça fora da água eram ainda piores. Em terra, eles caçavam em bandos. Haramis tinha até visto ataques a seres humanos. Na verdade, um bando de skriteks destruíra parte do exército do rei Voltrik. Já que o rei Voltrik de Labornok tinha invadido Ruwenda, matando os pais dela e estava tentando matá-la e às irmãs, na época Haramis foi capaz de conter as lágrimas.
E esses eram os adultos. De certa forma, os mais novos eram ainda piores. Os skriteks punham ovos e os abandonavam. Eles eram os únicos oddlings que tinham um verdadeiro estágio de larva, e que se defendia da melhor forma possível, muito bem por sinal, até tecer um casulo, mudar e surgir como um pequeno e voraz adulto. Haramis teve a sensação desagradável de que um dos bosques de árvores mortas que os skriteks usavam para processar essa metamorfose ficava na rota escolhida pelas crianças. Ela resolveu verificar isso logo que tivesse uma chance.
Naquele momento a rainha apresentava orgulhosamente seu “bebê” – o príncipe Egon, com dez anos de idade. Ele curvou-se corretamente segurando a mão de Haramis, e ela disfarçou o riso muito bem. Aquele pequeno era um conquistadorzinho mesmo. Tinha uma cabeleira dourada e cacheada e olhos azuis, enormes e inocentes – na verdade ele parecia muito com Anigel. Deve ter sido um temporão, pensou Haramis. Espero que tenha cérebro, mas com essa aparência talvez consiga sobreviver sem ele.
- Então sua irmã conversa com os skriteks, não é? – perguntou Haramis. – O que ela diz para eles?
- Ela diz que eles estão proibidos de declarar guerra contra os humanos.
Haramis ficou surpresa. Isso era verdade, e fazer cumprir essa proibição era um dos deveres da arquimaga. Mas como Mikayla podia saber – e sob quais circunstâncias discutia isso com os skriteks? Achava que os skriteks não levavam a proibição muito a sério. Mas se Mikayla não pensava assim...
Era de suma importância para Haramis conhecer Mikayla o mais depressa possível.

continua...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Senhora do Trilio - trecho 8

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine

...
Felizmente para o pouco que sobrava da paciência de Haramis, a rainha era uma pessoa mais prática. Num breve instante Haramis se lembrou de seus pais, o rei Krain, culto e extremamente distraído, e a rainha Kalanthe, capaz e gentil. A rainha ordenou que a criada fosse ver imediatamente se o quarto de hóspedes estava arrumado, com o fogo aceso, mandou os servos cuidarem da bagagem de Haramis e dos froniais. Despachou Ayah, que estava atrás da criada, o que não surpreendeu Haramis nem um pouco, com ordens de encontrar a princesa Mikayla e de levá-la imediatamente para a pequena sala de estar. Então conduziu Haramis para a sala, fez com que sentasse na cadeira mais confortável e pediu comida e bebida.
- O jantar será servido em breve – ela explicou - mas a senhora talvez queira um pouco de frutas secas e queijo...
Haramis sentou com as costas bem retas, cuidando para não demonstrar cansaço. Lá fora, sob o sol forte, sentia-se bem, mas o castelo por dentro era escuro e úmido, apesar do fogo. Ela olhou para o rei, que tinha ido atrás delas, e que estava parado perto da porta, sem saber o que fazer. Haramis percebeu que ele gostaria de ter tido tempo para preparar Mikayla para o encontro com a parenta idosa. Pelo pouco que tinha visto Mikayla, ela suspeitava que a rainha pensava a mesma coisa, mas disfarçava melhor que o marido. Ou talvez, Haramis pensou, o rei estivesse mesmo tentando lembrar de Mikayla. Se achava que era um menininha, era óbvio que não prestava muita atenção nela ultimamente. Haramis teve a impressão de que aquele dia seria um grande choque para ele.
A comida chegou e Haramis comeu educadamente, contendo sua impaciência. Ayah ia encontrar Mikayla tão depressa quanto possível, e seria insensato demonstrar impaciência demais.
Mas quando Ayah voltou, estava sozinha.
- Onde está minha filha? – perguntou a rainha.
Ayah parecia triste.
- Não está na Cidadela, majestade. Temo que tenha partido com lord Fiolon em mais uma de suas expedições.
A rainha afundou na cadeira e apoiou o polegar e o indicador juntos entre os olhos, como se acometida de uma repentina dor de cabeça. A notícia certamente não foi bem-vinda para Haramis, mas ela teve uma clara impressão de que não era uma surpresa completa. De fato, o único comentário audível que a rainha fez foi reclamar baixo:
- Por que hoje?
Mas o rei não conseguia compreender a situação que até para Haramis não era difícil de adivinhar. Claro, a irmã de Haramis, Kadiya, tinha o hábito de desaparecer nos pântanos durante semanas a fio, acompanhada apenas pelo caçador nyssomu Jagun, seu companheiro favorito, de modo que Haramis estava familiarizada com esse tipo de comportamento. A princesa Kadiya passou tempo suficiente no meio dos nyssomus para merecer o nome do pântano “Visão ao Longe” e para ser nomeada membro honorário da tribo nyssomu.
- Expedições? – ele vociferou. – Explique-se, mulher! Está dizendo que a minha filha está percorrendo os pântanos sozinha?
- Não, majestade – Ayah respondeu depressa. – Tenho certeza de que ela não está sozinha. Lord Fiolon e ela têm muitos amigos na aldeia nyssomu a oeste do outeiro, por isso sei que foram, no mínimo, com um guia.
O rei parecia que ia explodir. Os homens, pensou Haramis, sempre perguntavam coisas sem importância. Haramis escolheu aquele momento para se manifestar.
- Para onde teriam ido? – perguntou calmamente.
- Ouvi os dois conversando no mês passado sobre umas ruínas antigas subindo o rio Golobar – disse Ayah – mas achavam que o nível do rio não estava alto o suficiente para o barco chegar até lá. É claro – ela acrescentou timidamente -, tem chovido bastante desde então.
Haramis conhecia as ruínas, apesar de jamais ter estado lá pessoalmente. Ficavam onde o Pântano Negro encontrava o Pântano Verde, subindo o rio Golobar até quase a metade do caminho entre a nascente e o ponto em que fluía para o Rio Mutar Meridional, cerca de um dia de viagem a oeste da Cidadela. Mais um dia para chegar a Golobar, e provavelmente uma semana, no mínimo, sob condições ideais, para chegar às ruínas, supondo, é claro...
- Os skriteks! – Haramis exclamou de repente. – Ela sabe que há uma grande concentração de skriteks naquela área, não sabe?
- O quê? – o rei rugiu, quase abafando a exclamação de horror da rainha.
- Você não conhece nada do seu reino? – Haramis disse asperamente. – Está claro que não sabe quase nada também sobre a sua família.


continua...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Senhora do Trilio- trecho 7

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine


...
Assim ela foi em frente, sem mudar nada, muitas vezes puxando os froniais quando a vegetação tornava impossível montá-los, sem nenhum sinal externo de magia, a não ser sua capa e seu cajado. O talismã, o Círculo com Três Asas, que levava preso a uma corrente em volta do pescoço, estava escondido embaixo da roupa. Usava as botas mais resistentes que tinha: encantadas contra a chuva e o nevoeiro da estação, e para não se perder na confusão dos caminhos – não que a arquimaga precisasse desse último encantamento, mas lidava com isso desde menina e gostava de manter a forma.
Essa viagem era uma boa oportunidade para refrescar suas lembranças das estradas e caminhos de Ruwenda, pois não os trilhava a pé há muitos anos. Por isso, embora pudesse ter optado por qualquer tipo de comitiva que quisesse, ou qualquer veículo, real ou mágico, ela se absteve da magia na viagem, indo a pé ou levada pelos froniais. Esperava que mesmo assim, sua sobrinha-neta em segundo grau percebesse o sentido mágico daquela viagem.
Seria um bom começo para o aprendizado dela, se a menina tivesse alguma habilidade mágica natural. Pelo que Haramis tinha visto, Mikayla parecia mais dada a tentar analisar exatamente o que o que fazia um encantamento funcionar do que se esforçar para aprender qual a sua sensação. Essa era a menina que aparecia na visão de Haramis como sua sucessora, portanto isso estava resolvido. Não achava possível que Fiolon, sendo homem e um de Var, pudesse ser o sucessor designado.
Sua viagem lenta através dos pântanos levou outros quatro dias e noite, e durante esse tempo Haramis renovou sua familiaridade com a terra de Ruwenda, principalmente com sua parte formada por lama. Aliás, mais do que desejava. Tinha vivido tanto tempo nas montanhas nevadas que já esquecera como era a lama. Podia livrar-se da neve passando a mão, e qualquer pontinho que restasse logo evaporaria assim que entrasse em casa. Mas a lama grudava nela, secava em sua pele e coçava. Foi um alívio quando o caminho que percorria cruzou com a Grande Estrada e ela pôde trocar as trilhas lamacentas pela estrada pavimentada.
A estrada facilitava tudo e ela não precisava mais tomar cuidado a cada passo que dava, de modo que podia olhar em volta. Embora o inverno fosse sempre chuvoso nas proximidades da cidadela, aquele dia era um dos raros de sol e temperatura amena, valioso como uma pausa na tristeza da estação. Os pássaros chilreavam nas árvores que margeavam a estrada. Ao atingir a campina que cobria o Outeiro da Cidadela, ela viu que mesmo em pleno inverno as flores negras do trílio floresciam por toda parte. Ela riu alto. Quando criança, o Trílio Negro era raro e mágico, algo tão raro que existia apenas uma planta, aos cuidados da arquimaga. Mas depois que Haramis e suas irmãs derrotaram Orogastus, as flores surgiram magicamente sobre todo o outeiro. Agora eram comuns como ervas daninhas e, provavelmente, pensou Haramis com um humor meio deturpado, vistas dessa forma.


Era quase meio dia quando ela chegou à Cidadela, e foi recebida pelo rei com uma surpresa tão grande que beirava à estupefação.
- Senhora arquimaga, é uma honra enorme recebê-la – disse o rei, parecendo um pouco nervoso. – Como podemos servi-la?
A rainha, por outro lado, deu a impressão de considerar a chegada de Haramis sem aviso e sem comitiva nada além da excentricidade de uma mulher idosa, e levou isso em conta.
- Deve estar exausta, Senhora! – a criada chegou apressada, atendendo ao olhar da rainha. – Deixe os servos levarem suas coisas para o quarto de hóspedes e cuidarem de seus animais, enquanto descansa da viagem.
Dez dias enfrentando o frio do inverno e os caprichos de dois froniais meio excêntricos (não se importavam muito com a montanha, mas detestavam o pântano) deixaram Haramis sem fôlego e mal-humorada também.
- Vocês podem deixar de lado toda essa cerimônia – disse ela bruscamente. – O assunto que vim tratar não diz respeito a vocês dois, e sim a Mikayla.
- Mikayla? – o rei perguntou, sem entender.
- Sua filha Mikayla – disse Haramis com os dentes cerrados.
Nunca teve muita paciência com gente idiota e tinha passado tantos anos sozinha que perdera a prática dos modos da corte. Além do mais, como arquimaga, não precisava se preocupar com o que os outros pensavam dela.
- A sexta dos seus sete filhos. Lembra dela, não é?
O rei conseguiu dar uma risadinha nervosa.
- Sim, é claro que me lembro. Mas ela é apenas uma menininha. O que você quer com ela?


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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Senhora do Trilio - Trecho 6

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine
Capítulo 2

Haramis achava que não podia demorar mais. Não queria imaginar sua sucessora na mesma situação que ela esteve – mergulhada de repente no papel de arquimaga de Ruwenda, sem a menor idéia do que aquilo representava. Por isso, por mais cruel e prematuro que parecesse ser, para ela e obviamente para Ayah, precisava começar a educar Mikayla para a função que ia desempenhar no futuro.
Ayah ficou vários dias na torre, na companhia de Enya, enquanto Haramis fazia os preparativos para a viagem à procura de sua sucessora. É claro que podia, simplesmente, chamar alguns abutres gigantes para levá-la até a cidadela e trazer Mikayla de volta para a torre. Mas queria que Mikayla visse os detalhes da terra com a qual ia se unir, e assim, no dia em que despachou Ayah num abutre, montou num fronial já equipado com mantimentos e material de acampamento, e partiu para a cidadela ao sul, onde sua irmã Anigel vivera e morrera.
Os primeiros dias da viagem foram nas montanhas. Fazia muito frio, embora o tempo estivesse ameno para o inverno, e nenhuma neve caiu. (Haramis achava que sofria bastante viajando pela neve que já estava no chão, para permitir que nevasse mais). Apesar do saco de dormir bem forrado, sentia dores em todas as juntas quando acordava de manhã. Mas no fim do quinto dia a neve tinha acabado e ela observou o sol se pondo, imenso e vermelho, sobre o pântano no oeste.
A partir daí a maior parte da viagem era feita por caminhos secretos que ninguém usava há muito, através dos pântanos de Ruwenda. Houve um tempo em que conhecia cada passo dessas trilhas, tão bem quanto as estantes da sua biblioteca. Só pela dor que sentia nos músculos era evidente que tinha de fato passado tempo demais em retiro atrás das paredes confortáveis da torre. Era verdade que quando tudo ia bem na terra, não havia necessidade de deixar a torre, mas mesmo assim sentia que devia sair mais. Quantos anos se passaram desde que vira a terra, fora dos transes da visão? Mesmo com as dores do corpo, era bom estar fora de casa, passeando.
Quanto à aparência física, Haramis se disfarçou como uma mulher comum, mas ainda em perfeitas condições de saúde, apesar do cabelo branco como a neve. Essa era a aparência que sempre usava quando viajava pela terra, mesmo quando era muito jovem. Isso garantia que seria tratada com certo respeito, mas sem o medo supersticioso que a presença da arquimaga provocaria. Porém, no fim de cada dia ficava imaginando se aquela impressão de saúde não era uma mentira igual a qualquer coisa que indicasse seus poderes mais misteriosos, ou a sua verdadeira idade.
Lembrou mais uma vez que poderia ter chamado um dos abutres que a serviam, e ficava tentada a fazer isso muitas vezes, especialmente nos fins da tarde, quando pensava na urgência de sua missão.
Haramis achava que provocar um rebuliço em toda Ruwenda aterrissando daquela forma no pátio da casa da sua sobrinha-neta, por mais distante que fosse o parentesco, daria à menina – e possivelmente até aos pais dela, embora cansados de saber – uma idéia inteiramente equivocada da utilização dos deveres e dificuldades da função de arquimaga, além da idéia equivocada da utilização do poder mágico. Não havia nada de mágico nos froniais. Orogastus mantinha um estábulo deles (já que não podia invocar os abutres gigantes, os froniais eram seu único meio de transporte para sair e voltar da torre), e Haramis tinha simplesmente dado continuidade ao programa de criação.
Orogastus, sempre bombástico, certamente chegaria dessa viagem de abutre gigante, se pudesse. Mas não era esse o estilo de Haramis.
continua...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Senhora do Trilio - Trecho 5

Autor: Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine


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Informações sobre a terra eram acessíveis para Haramis como as batidas do seu coração. Era muito mais difícil obter informações sobre as pessoas. Passaram várias semanas antes de Ayah, serva nyssomu do palácio, receber a mensagem da arquimaga, conseguir uma licença para visitar a irmã, e afastar-se bastante da cidadela de forma que um abutre gigante pudesse pegá-la sem ser visto. Ninguém da família real sabia que a irmã de Ayah trabalhava para a arquimaga, e Haramis queria manter as coisas desse jeito.
Um abutre finalmente chegou à torre com uma nyssomu bem embrulhada nas costas. Haramis saiu para receber o pássaro e carregou a pequena mulher para dentro no colo. O principal problema de morar onde morava era que seus servos nyssomus não podiam sair em segurança. Mesmo depois de quase duzentos anos, Haramis ainda lembrava vivamente do dia em que seu amigo e companheiro Uzun quase morreu congelado quando procuravam seu talismã. Ela perdeu um dia inteiro de viagem retornando para um ponto de menor altitude para reaquecer Uzun, antes de enviá-lo de volta para as terras baixas e continuar a viagem sozinha. Os vispis eram os únicos oddlings que podiam sobreviver nas montanhas, e até eles preferiam viver em pequenos vales isolados, aquecidos por fontes de água quente.
Então Haramis carregou o embrulho bem enrolado para dentro da torre e entregou a hóspede para Enya, irmã da visitante, para levá-la para seu quarto e dar-lhe de comer depois da viagem. O que Haramis queria saber tinha demorado esse tempo todo para chegar. Podia aguardar mais algumas horas.



Quando as três se reuniram no estúdio de Haramis, bebendo suco de ladu quente em canecas, Haramis perguntou a Ayah sobre as crianças da visão.
- A princesa Mikayla e lorde Fiolon? – perguntou a oddling surpresa.
Ela obviamente ficou imaginando que interesse Haramis podia ter nas duas crianças, mas Haramis achou melhor não explicar, pelo menos não naquele momento. Simplesmente esperou até a mulher continuar.
- Mika, a princesa Mikayla, é a sexta dos sete filhos do rei. O rei se concentra na educação do seu herdeiro. A rainha se preocupa com o “bebê”, que hoje tem dez anos, e os outros quatro têm idades muito próximas, e costumam andar juntos – a mulher oddling balançou a cabeça. – Por isso ninguém liga para o que Mika faz, e os pais de Fiolon estão mortos, ou pelo menos a mãe dele está. Se não tivessem um ao outro, ela poderia ser uma criança muito solitária, e acho que ele também.
Haramis pensou no que ela dizia.
- Sempre tive Uzun como meu melhor amigo – ela disse, sorrindo e olhando com carinho para uma harpa de madeira polida com uma incrustação de osso no topo da coluna, que estava ao lado da sua cadeira. Passou a mão no instrumento como se acariciasse um animal de estimação. – Mesmo assim, não consigo imaginar como seria minha infância sem as minhas irmãs. Elas estavam sempre lá, querendo ou não – ela trouxe o pensamento de volta para o presente. – Então como é que Fiolon se encaixa? Quem é ele, exatamente?
Ayah continuou seu relatório.
- Lorde Fiolon de Var. A mãe dele era a irmã mais nova do Rei de Var; nossa rainha é a do meio. A mãe de Fiolon morreu quando ele nasceu, mas passaram-se seis anos antes da nossa rainha persuadir o rei a permitir que ela criasse o filho da irmã falecida.
- E o pai de Fiolon? – Haramis estava curiosa para saber isso desde o momento que ouviu a conversa das crianças.
Ayah deu de ombros.
- Ninguém sabe. A mãe dele não era casada.
Haramis fez cara de espanto.
- A irmã do Rei de Var teve um filho, e ninguém tem a menor idéia de quem é o pai? Dada a falta de privacidade em qualquer palácio que eu conheço, isso parece incrível. Alguém deve ao menos suspeitar de quem era seu amante.
- Segundo os boatos ela morreu afirmando que um dos Senhores do Ar era o pai de seu filho.
Haramis ergueu as sobrancelhas, surpresa.
- Jamais soube que os Senhores do Ar assumissem forma física, menos ainda que gerassem filhos.
Ayah suspirou.
- Ela estava morrendo, Senhora, e provavelmente delirava. Mas eu concordo, é estranho que ninguém saiba quem é o pai dele. Muito estranho.
Haramis deu de ombros.
- Duvido que isso tenha importância. Toda família numerosa tem crianças extras. Mikayla e ele estão comprometidos?
Ayah balançou a cabeça.
- Existem boatos – Mikayla se encaixa na sua categoria de extra também, até onde é permitido a qualquer princesa, mas não existe um contrato formal. Creio que pode até ser bom. Eles gostam muito um do outro.
- É uma pena – disse Haramis. – Já que Mikayla será a próxima arquimaga, ela terá que desistir dele.
O queixo de Ayah caiu.
- Mika? A arquimaga? – Ela hesitou um longo momento antes de continuar a falar. – Senhora de Branco, eu realmente acho que ela não vai gostar disso.
- Não importa se ela gosta ou não – disse Haramis calmamente. – Ninguém é voluntário para essa vida. É o destino dela, como foi o meu.

continua....

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A Senhora do Trilio - trecho 3

De Marion Zimmer Bradley
Tradução: Ariane Pierine

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- Não funciona no escuro – o menino ainda defendia seu ponto de vista.
- Ah, eu concordo que precisa de luz para funcionar, mas se fosse só a luz a ativá-lo, todas as melodias, menos a de baixo, tocariam de uma só vez.
O ser da visão de Haramis atravessou o quarto para ver o que a menina segurava. Era um de seus brinquedos favoritos quando era criança. Era uma caixa de música, sobrevivente do tempo dos Desaparecidos, um cubo que tocava uma melodia diferente, dependendo do lado sobre o qual ficava apoiado.
- Olha, Fiolon – a menina apontou, segurando o cubo de forma que uma aresta tocasse no chão no meio dos dois. – Se fosse apenas a luz, deveria estar tocando pelo menos uma música agora, está recebendo luz direta do sol – ela virou a caixa, deixando-a apoiada sobre um lado, e começou a tocar uma melodia. – Viu? Tem que estar com um lado inteiro no chão ou... – ela levantou o cubo todo - ...paralelo ao chão.
- Horizontal, você quer dizer – disse o menino.
- É a mesma coisa, se o chão for plano. Agora olha aqui – ela virou a caixa para um lado, movendo-a lenta e cuidadosamente. – A música pára quando a gente inclina mais que dois dedos e, quando outro lado fica na horizontal, há uma pausa antes de começar a música de novo. E durante essa pausa – ela concluiu triunfante – sinto alguma coisa mudando no cubo. A música não começa outra vez até que essa coisa, seja lá o que for, chegue ao fundo. – Ela colocou o cubo perto da orelha. – Há uma espécie de líquido aqui dentro. Gostaria de poder abrir isso e ver o que tem dentro, e como funciona.
Fiolon estendeu o braço e tirou o cubo da mão dela.
- Não se atreva, Mikayla! Esse é o único que nós temos, e eu gosto dele. Se quebrá-lo, não caso mais com você quando a gente crescer.
- Eu conserto depois – protestou Mikayla.
- Você não sabe se vai conseguir montá-lo de novo- Fiolon observou com calma e objetividade. – Você não sabe o que é esse líquido, é pesado demais para ser água, e vai derramar se abrir isso. E não temos mais nada para saber como era a música dos Desaparecidos.
Mikayla riu.
- Você só não quer se arriscara destruir qualquer fonte de música. Acho que seu pai deve ter sido um músico.
Fiolon deu de ombros.
- Jamais saberemos.
Mikayla pegou o cubo de volta e equilibrou-o numa das mãos.
- Acho que tem razão quanto ao líquido. Realmente parece pesado demais para ser água, e a coisa que tem aí dentro se mexe devagar demais para estar flutuando em água – ela deu um suspiro. – Queria encontrar mais desses.
- Eu também – concordou Fiolon. – Aí talvez pudéssemos ter mais melodias.
- E se encontrássemos uma igual, eu poderia desmontar para ver o que tem dentro.
- Por que você quer sempre saber como as coisas funcionam?
Mikayla deu de ombros.
Por querer. Por que você quer sempre compor uma canção sobre tudo?
Fiolon mexeu os ombros do mesmo jeito.
- Por querer.
Eles se entreolharam e caíram na risada.
Haramis deu uma risadinha e se viu de vota na sua torre, olhando para a bacia. Sua respiração tinha perturbado a superfície da água, interrompendo a visão.
Bem, ela pensou, eles certamente parecem bem inteligentes, mas tenho dificuldade de vê-la como arquimaga. Terei de descobrir mais sobre ela – e sobre ele. Quanto à observação que fez sobre o casamento, parece que os dois estão comprometidos, mas é muito estranho ele não saber quem foi seu pai. E apesar das roupas terem sido herdadas de alguém, quando novas eram de boa qualidade, e as crianças não falavam como servos.
Haramis vestiu-se apressada e foi tomar o café da manhã. Tinha de escrever cartas e mandar mensagens.


continua...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Senhora do Trilio - trecho 2

Marion Zimmer Bradley
Tradução Ariane Pierini

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Os nyssomus estavam entre os oddlings que mais se assemelhavam aos humanos, e muitos tinham servido à corte de Ruwenda quando Haramis era criança. Seu melhor amigo, Uzun, nyssomu e músico da corte, possuía bastante habilidade para a mágica, além do talento musical, e foi ele que ensinou a visão na água para Haramis. Era um método sabidamente incerto de adivinhação, apenas um pouco melhor como método de comunicação, mas Haramis descobriu que quando combinado com seus poderes de arquimaga, ficava bem preciso. Era mais fácil e mais confiável, no entanto, se feito com o estômago vazio.
Ela clareou a mente o máximo que conseguiu, apesar da impossibilidade de banir por completo o sonho recente, e olhou através da água.
Quase no mesmo instante parecia que voava pelo ar, como se montasse um dos grandes abutres que costumavam transportá-la, e aproximou-se de uma torre. Reconheceu a construção. Era a torre principal da cidadela, uma adição relativamente recente construída por humanos (nos últimos quinhentos anos), enquanto o prédio principal era um sobrevivente dos tempos dos Desaparecidos.
Aterrissou suavemente no telhado da torre e deixou seu corpo espiritual descer pela clarabóia até o cômodo mais alto. Naquele momento, em sua visão, o cômodo estava vazio. A última vez que esteve ali em carne e osso o lugar estava cheio de soldados labornoki tentando capturar os dois, Uzun e ela, e só a chegada oportuna de dois abutres gigantes para levá-los embora do telhado da torre possibilitou a saída de lá com vida. Lembranças daquele dia tão distante voltaram, enquanto Haramis continuava a traçar sua rota de fuga.
O pavimento logo abaixo tinha sido dormitório para alguns soldados da cidadela. Até onde conseguia lembrar, a idéia maluca de colocar os soldados dormindo dezessete andares acima de tudo tinha sido do seu avô. Seu pai fora muito mais um estudioso do que um guerreiro e não se preocupou em modificar esse arranjo.
Obviamente alguém tinha sido sensato o bastante para acabar com esse costume, antes de ser sacramentado pela tradição. Embora o quarto tivesse meia dúzia de camas e seus respectivos baús de roupas, havia apenas duas pessoas no antigo dormitório, um menino e uma menina, ambos aparentando ter doze anos de idade. Estavam sentados no chão, um de frente para o outro, no centro de um raio de sol que entrava por uma janela aberta.
- Acho que funciona com a luz – dizia o menino.
Ele era magro, tinha o cabelo cheio e negro, precisando de um corte. Caía por cima do rosto quando se debruçava sobre o objeto que estavam estudando, e ele o afastava com a mão, distraído. Assim que tirava a mão o cabelo caía de novo, mas ele ignorava.
- Não pode ser só isso – objetou a menina.
O cabelo dela era ruivo e brilhante, penteado em tranças soltas que caíam até a cintura. Haramis não vira ninguém com o cabelo assim exceto sua irmã Kadiya e, pelo jeito, aquela menina cuidava tanto da aparência quanto Kadiya. As duas crianças usavam roupas que obviamente tinham sido herdadas de crianças, maiores, e nenhum dos dois parecia se importar em mantê-las limpas. O chão de madeira não era varrido há meses, ou anos, mas a poeira mostrava marcas que sugeriam que as crianças, ou outras pessoas, costumavam se deitar no chão, indiferentes à sujeira e às farpas. E a menina era ainda mais magra que o menino. Será que ninguém alimenta essas crianças?, pensou Haramis.


continua...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Trecho de A Senhora do Trilio




A senhora do Trílio
Marion Zimmer Bradley

Tradução de Ariane Pierini






A torre de Noth, feita de pedra, erguia-se desolada, no meio do mato murcho de sede. O restinho de água no fosso estava coberto de espuma e o cheiro de morte pairava no ar. A menina atravessou correndo a ponte levadiça, passou pelo pátio e pelo jardim, e entrou no quarto da arquimaga a tempo de ver a velha senhora morrer e seu corpo desfazer-se em pó. Enquanto estava ali parada, chocada com os acontecimentos tão repentinos, a Torre inteira virou pó à sua volta e foi soprada pelo vento, e tudo que restou foi a capa branca da arquimaga...

Haramis, a Senhora de Branco, arquimaga de Ruwenda, despertou subitamente, sentindo-se muito velha, mais a inda se comparada à menina que tinha sido em seu sonho. Não era exatamente uma surpresa, estava velha mesmo, tendo passado por várias vidas comuns até então, ela pensou com tristeza. Como arquimaga, ligada espiritualmente à terra, seu tempo de existência tinha sido ampliado muito além da vida de suas duas irmãs. Apesar de nascidas juntas, seus destinos tinham se separado à muito tempo e ela, a mais velha das princesas trigêmeas, era a única sobrevivente.
Kadiya, a do meio, foi a primeira a partir. Depois da grande batalha contra Orogastus, ela desapareceu em seus amados pântanos com o companheiro Oddling e seu talismã, o Olho Ardente Trilobado, que fazia parte do grande cetro mágico que as trigêmeas usaram para derrotar Orogastus. Durante um tempo, Haramis e ela se comunicavam ocasionalmente por meio da visão, mas Kadiya havia desaparecido havia décadas. A essa altura – pensou Haramis – ela já deve estar morta.
Anigel, a mais nova, tinha casado com o príncipe Antar de Labornok, unindo os dois reinos, e morreu em paz, de velhice, cercada pelos filhos e netos. O trono duplo passou para seus descendentes. Quem reinava agora, um neto ou um bisneto? Haramis não conseguia lembrar, os anos passavam depressa demais. Talvez fosse até um tataraneto.
Haramis, a mais velha, foi escolhida para substituir a arquimaga Binah como guardiã da terra. Ruwenda prosperou naqueles anos e Haramis amava a terra como se fosse uma filha. E de certa forma era mesmo.
Agora, contudo, estava tendo sonhos estranhos. Era a terceira noite seguida que revivia a morte de Binah em sonhos e acordava de manhã cansada demais para sair da cama. Será que era um aviso de que morreria em breve?
Talvez estivesse chegando a hora de uma nova guardiã assumir a função. Se sua sucessora fosse escolhida logo, talvez até tivesse tempo de treiná-la. Haramis gostaria de ter tido algumas aulas quando foi escolhida, mas não teve. Queria fazer mais por sua sucessora. Mas quem poderia ser?
Binah tinha simplesmente dado a capa para Haramis antes de morrer, e a torre em que viveu e trabalhou desfez-se em pó junto com seu corpo. Haramis, que até aquele momento era herdeira do trono, tinha sido treinada desde criança para ser rainha, não arquimaga. Achou a repentina mudança desconcertante, para dizer o mínimo. Aquele não era o legado que desejava deixar para sua sucessora.
A arquimaga arrastou-se para fora da cama, ignorando as articulações doloridas e uma sensação generalizada de mal-estar. Se ainda estivesse morando na cidadela de Ruwenda, onde fora criada, sem dúvida estaria se sentindo ainda pior – A cidadela era um castelo de pedra típico, impossível de aquecer. Mas a Torre onde Haramis vivia desde o momento em que se tornou arquimaga era quente por dentro, apesar de estar localizada perto da fronteira entre Labornok e Ruwenda, no cume do monte Brom, e de ser inverno. Orogastus vivera na torre antes dela, e equipou-a com todos os luxos que conseguiu descobrir, roubar ou comprar. Tinha se especializado nos aparelhos dos Desaparecidos. Muitos eram armas perigosas, outros, porém, eram bem práticos e tornavam o dia a dia muito mais confortável.
Infelizmente para ele, Orogastus jamais compreendeu muito bem a diferença que havia entre a tecnologia deixada para trás pelos Desaparecidos e a verdadeira mágica. Dependia tanto da tecnologia, que Haramis e suas irmãs foram capazes de destruí-lo com a magia.
Para Haramis a diferença entre a mágica e a tecnologia antiga era tão óbvia, embora difícil de explicar, que ainda não entendia como Orogastus podia ter sido tão tacanho, especialmente considerando que ele já possuía habilidades mágicas próprias.
Haramis ainda estremecia ao lembrar-se da breve atração provocada por ele. Durante algumas semanas chegou a achar que estava apaixonada. Mas aparentemente isso funcionou contra ele, lembrou. Ele perdeu várias oportunidades de me prejudicar, mesmo depois de eu ter deixado claro que não o amava. Era como se estivesse convencido de que me amava e não podia causar-me mal, e que eu o amaria também, necessariamente, e que iria ajudá-lo em seus planos.
Ela aproximou-se de um armário de madeira todo trabalhado e pegou uma bacia de prata de uma das gavetas. Colocou a bacia sobre uma mesa no centro do quarto, despejou água pura de um jarro que estava ao lado da cama até cobrir metade do recipiente e inclinou-se sobre ele.
A visão na água era praticada por várias raças de oddlings que viviam nos pântanos em volta da cidadela. Os oddlings não eram humanos. Eram aborígenes, descendentes dos primeiros habitantes da terra. Algumas raças de oddlings eram bem parecidas com os humanos, enquanto outras eram como seres saídos de pesadelos, mas geralmente viviam em paz com os humanos...
Continua....

Aguardem a versão em ebook completa!